Páginas

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Querer que todos gostem de mim e que tudo dê certo...

 

         Eu me encontro nessa situação. E para falar a verdade faz bastante tempo, acho que desde que me entendo por gente. O pior é que criei minhas filhas nesses moldes.

         Sempre acho que devo agradar, que não devo dizer não, que tenho que ceder à pressão (até fiquei orgulhosa dia desses porque falei não), mas fica aquela indecisão: será que eu não deveria ter dito sim?!...Fico remoendo, mesmo quando minha chefe me manda relaxar e descansar.

         Nossa! Acho que isso é insegurança demais...

         Ouvi minha vida inteira de minha mãe, que eu não deveria desagradar os outros, mas e eu? Como fico? Eternamente desconfortável?!

         Sou muito vulnerável a opiniões alheias, e preciso ter minhas próprias conclusões, o que a vida acaba nos ensinando.

         Em partes tenho evoluído, mas falta muito ainda...

         Trabalho muito sob pressão, e às vezes me sinto mal por não conseguir servir a todos. Falta eu entender que nem tudo é possível ou está ao meu alcance, mas será que falta eu entender ou eu não consigo por em prática esse entendimento?!

         Ajustes precisam ser feitos, remanejamentos, mudanças, e eu fico com medo de machucar as pessoas. Como pode se trabalhar pensando só nos outros?!

         Eu preciso aceitar de uma vez por todas que não sou a fada madrinha, que não tem o certo e o errado, e que na vida, todo mundo tenta se sair da melhor forma possível, como pode, sem sacrifícios, sem horas de sono jogadas no lixo, sem muitos remédios para dormir a serem tomados.

         Tantas coisas que penso ansiosa e nem são realidade, nem acontecem de fato.

         Mas ser ansiosa, eis o meu grande problema. Fico ruminando coisas, vivendo e sofrendo pelo que talvez nem aconteça, como já não aconteceram muitas vezes. Preciso pensar: isso tem possibilidade até em que ponto de ser real?!

         Já passei por situações quase irreversíveis só por optar em não dizer o que precisava ser dito. Era só dizer com jeitinho, mas nem assim eu conseguia me colocar.

         Às vezes ainda me pego pensando: será que a pessoa vai se vingar? Será que não vai mais falar comigo? Coisas corriqueiras que eu transformo em grandes montanhas, e que apenas precisavam ser expressadas...

         Aquele “quem não tem colírio, usa óculos escuros” parece não ter sentido para mim, porque a qualquer preço eu quero dar o colírio, amenizar o sofrimento dos outros...

         Por que será que eu me preocupo tanto com o que os outros pensam sobre mim? Por que será essa necessidade de ser aceita e ter tudo validado pelos outros?! INSEGURANÇA, FALTA DE AUTO ESTIMA? Só pode ser!!!

         Em que momento da vida poderei me desfazer desses valores? Espero que em breve.

         Muita gente fala algo que não concordo e eu me calo. Não queria ser assim. Guardar sentimentos horríveis que apenas me fazem mal. Tenho que aprender a reivindicar direitos, a ter poder de fala, justo eu que tenho uma profissão que almeja dar voz aos excluídos (serviço social) me vejo calada, quieta, aceitando que me confrontem gratuitamente...

         É isso aí! Preciso mesmo é me dedicar a jogar melhor o jogo que a vida me propõe a cada instante. E aprender que posso ganhar ou perder. O que vale a pena mesmo no final, é ter participado do jogo! ...

 

Beijos de luz!

Mara

SP 09/04/2024

        

 

 

        

 

 

 


quarta-feira, 12 de março de 2025

 

O tempo, a falta de tempo, a educação, o estrelismo  etc

 

Tem coisas que só o tempo de Deus pode resolver. O tempo D’ele não é o nosso. Mas teimamos em achar, ansiosamente, que somos capazes de resolver antes, como se estivesse sob nosso poder.

Já passei por situações difíceis que só próprio tempo pôde resolver. E depois olhamos para trás e dizemos: eu não acredito que superei isso, que venci, enfim, que estou aqui do outro lado do caos que vivi.

As situações se colocam em nossas vidas sem nem mesmo buscá-las. Chegam e te pegam de surpresa, e minha mãe tinha a máxima de dizer: “Não desagrade ninguém!” Aí eu fico me perguntando até que ponto isso é benéfico, pois ao não desagradar o outro, desagrado a mim.

É só ter um jeitinho para falar as coisas necessárias, mas nem sempre a gente tem esse jeitinho, e aí fica ali enroscado na garganta, e pior que o corpo adoece feio.

Sou dessas pessoas que preza pela paz. O barulho, a briga, a discursão me deixam mal. Vou diminuindo o equilíbrio emocional, e daí para uma crise de ansiedade são “dois palitos”.

Ultimamente tenho pensado que cada dia que passamos é um dia a menos e não um dia a mais. Sem querer ser pessimista, mas essa é a realidade. Depois que perdemos um ente querido isso fica mais evidenciado.

Nesse mês fizeram no meu trabalho uma homenagem às funcionárias falecidas, tem frases que falam de legado, muito bonito por sinal. Olhando aquelas fotos me debrucei sobre o pensamento de que parece mentira, elas ali sorrindo, tão lindas. As encontrava nos elevadores, cumprimentava.

Sim, cumprimentava, coisa que fazem bem pouco no meu trabalho.

Eu sempre tive a impressão que quem tinha um doutorado ou um pós-doutorado, espontaneamente teria educação; ledo engano. Quando cheguei no meu local de trabalho, cumprimentava as pessoas e elas ignoravam. Eu ficava muito mal, mas depois entendi que podia não estar bem, ou simplesmente ter o direito de não querer me cumprimentar. Aí passei, infelizmente a não mais jogar meu cumprimento “fora”.

Vê-se cada profissional famoso por seu título e sem um milímetro de educação. Alguns acham até que somos inferiores, no olhar desdenham.

Tive que aprender a lidar com isso, mas confesso que não foi fácil não. Teve uma dessas “profissionais “aí que até gritou, literalmente, comigo, me desrespeitou e à minha profissão, mas felizmente trabalhei em terapia e superei, mas evito, confesso que evito a pessoa para me ver livre do desgaste.

Tem muita gente trabalhando doente, não faz terapia e nós precisamos de terapia para lidar com elas. Quantas vezes chorei por causa de gente que não se trata, não tem a crítica de perceber que precisa de auxílio profissional. O difícil é você ter que compreender a dinâmica adoecedora das pessoas desse tipo.

Tem gente que assume vários plantões em busca do dinheiro e esquece a humanização, o sol, o ar, os bens que Deus nos proporciona gratuitamente.

É uma pena que existam pessoas que não vivem, mas apenas passam pela vida. A soberba cega, a ambição vai matando uma essência boa que talvez houvesse.

Prevalece numa classe profissional que não vou citar, uma questão cultural de superioridade. Nem parece que lidam com a finitude da vida. São pessoas amargas, negativas, arrogantes, doentes, enfim.

Estrelismo: segundo o Google é comportamento característico de quem, sendo ou não um astro ou estrela, exige ser tratado como tal, chegando, por vezes, à arrogância e ao vedetismo (atitude de vedete). Se conheço gente assim que se diz profissional de ponta?! E se conheço... nossa, prefiro parar a crítica por aqui!

Respeito e educação é algo que vem de berço mesmo, como diziam os antigos. De nada adianta ficar tantos anos estudando para sair maltratando os outros gratuitamente. Banco de escola realmente não muda a visão de mundo que a pessoa tem e que parece ter trazido de casa.

Por hoje, fico por aqui. Já fiz o meu desabafo. Quero que todos entendam que não me considero dona da verdade. Eu apenas sou uma pessoa comum que tem algumas inquietações e resolveu escrever para deixar registrado.

Beijos de luz!

 

domingo, 2 de março de 2025

 

DEPRESSÃO – DIAS CINZENTOS, QUASE ESCURIDÃO

 

Ontem, que bom que foi ontem, foi um dia muito difícil. Um misto de tristeza com tristeza e meia, desilusão, desesperança...

Eu sentia uma tristeza tão profunda que chegava a doer meu coração. Meu marido fazia de tudo para resgatar-me, e aí eu ficava pior, por não corresponder à expectativa dele de me ajudar a sair daquela situação.

Meu Deus, eu não queria ser um peso na vida de ninguém. Não queria preocupar as pessoas, mas sozinha não sou capaz de superar.

Meu marido é um anjo que Deus colocou no meu caminho para me ajudar nos momentos mais difíceis da minha jornada nessa terra.

Sabe, quando você tenta fingir que está tudo bem, mas está estampado em seu rosto as marcas da tristeza aguda?

Quem sofre de depressão sabe: a gente sofre duas vezes ou mais. Sofre pela tristeza que parece não ter motivo e por parecer um fardo na vida dos outros, sugando suas energias...

Deve ser horrível tentar fazer de tudo para a pessoa reagir e nada acontecer. Mas tem gente que é resiliente, ainda bem!

Algumas pessoas julgam a depressão, muitas até! Julgam como fraqueza, moleza, julgam que não temos Deus, ledo engano, temos sim! Mas acho que até Deus chora de ver nossa condição quase impossível de resistir.

Até pão com café da tarde foi feito, e nada, nada de reação. Mas felizmente o fim do dia chegou, tomei meus remédios e tive um sono restaurador, um alívio, uma força, ainda que pequena...

No outro dia a pergunta: está melhor? E eu estava, graças a Deus. Limpei a casa, fiz comida, reagi então. Estou esperando minha filha e meu genro. Tomei uma catuaba, ouvi música, chorei, compensei o dia de ontem, que não suportava sequer ouvir uma música.

Nesses relatos sou acompanhada por uma pessoa muito significante na minha vida: minha terapeuta. Ela tem a gentileza e o cuidado de ler meus desabafos, minhas postagens.

Tomara que o que escrevo ajude alguém. Sei que para mim é um alívio poder registrar um pouco da minha vida cheia de altos e baixos, idas e vindas...

Gratidão é o que tenho a quem me ajuda nessa caminhada, longa e árdua caminhada.

Beijos de luz!

 

sábado, 22 de fevereiro de 2025

 

COVID – DOENÇA QUE TROUXE PREJUÍZOS DEMAIS PARA TODOS NÓS.

 

 

                Eu perdi um irmão com seus apenas 39 anos para a Covid em 15 de maio de 2021. Sofremos muito, ele tinha muito a viver. Engraçado, alegre, comunicativo, carismático, cheinho de vida... Uma pessoa fantástica, um irmão amoroso e um filho muito carinhoso.

                Em 15 dias que meu irmão se foi eu entrei na UTI também vítima da Covid – sim, essa doença que o Presidente genocida imitava o povo com falta de ar- entrei com 98% do pulmão comprometido (tenho a tomografia para quem é Tomé). Fiquei 08 dias na UTI, nos primeiros dias com gasometria péssima, os médicos não davam esperança sobre mim...

                Minha mãezinha orava e rogava a Deus que não deixasse ir embora outro filho, pois ela não iria suportar. Ela me disse que gritava desesperada clamando a Deus.

                Não fui entubada, mas quase. Meu irmão faleceu assim que foi entubado, e meu outro irmão pediu à médica que cuidava de mim que não me entubasse, que chamasse uma equipe, que discutisse meu caso.

                Eu estava numa UTI do SUS em Iguatu-CE. Dado o pedido do meu irmão, e dada muito maior a vontade divina, surgiu um médico cubano (Jorge Madrigal) que ali passava para visitar uma paciente sua, e disse que eu não poderia ser entubada, pois morreria, embora todos os instrumentos para tal já estivessem ali ao lado.

                Eu testei positivo em Orós, e de lá no primeiro dia não pude sair para Iguatu (cidades do interior do Ceará), pois meu estado era muito grave e poderia ser que eu não resistisse 60 km numa ambulância. O motorista desta teve que correr muito, pois o oxigênio tinha que ir no máximo, e poderia acabar. Meu pai vinha logo após a ambulância.

                Eu e meu pai havíamos tido uma situação de estresse antes de eu passar mal, mas quando percebi que a morte batia à minha porta, o pedi perdão no caminho do Hospital onde eu nasci. Disse que o amava, tamanho era meu medo de partir sem que ele soubesse disso.

                Chegando em Iguatu fiquei na sala de estabilização. Lembro-me de muitas pessoas ao meu redor, tentando “pegar” veia até nos pés. Eu não lembro de tudo, mas lembro que meu pai não me abandonou um só segundo e depois minha tia Loura chegou para lhe dar suporte. Ela foi num domingo, de carona. Ah tia! Nunca esquecerei disso!

                Soube depois que meu pai passou mal, desmaiou, machucou as costelas, precisou de atendimento, tamanha era a aflição na espera por uma vaga na UTI do SUS. Ali só se conseguia vaga quando alguém morria. Sim! Isso mesmo! Era o auge da doença. E eu não tinha nenhuma possibilidade de ser transferida para onde quer que fosse.

                Minhas filhas e meu marido em SP apenas com notícias que os familiares aflitos passavam ou que o pessoal da UTI passava. Termos técnicos no caso. Meu irmão chegou a dizer ao meu marido que eu não voltaria para casa, tão grande era seu desespero, pois tinha perdido um irmão muito recentemente, mais novo, mais saudável, menos obeso e não tinha asma como eu tenho. Meu marido, por sua vez chorou num quarto escuro por quase 4 dias. Ia trabalhar, mas chorava lá também.

                Os dias na UTI foram difíceis, muito sofrimento, medo da entubação, alerta – não conseguia dormir - banho na cama, alimentação dada pelos técnicos de enfermagem. Máscara de VNI 24 horas direto. A lágrima escorria, mas os fisioterapeutas pediam calma e diziam que era para o meu bem. Os ossos do rosto pareciam quebrados, as gasometrias doíam muito, a falta de ar era horrível. Meu irmão e minha filha alugaram uma outra forma de oxigênio, um catéter, não sei. Sentar-se pela primeira vez foi uma dificuldade enorme.

                Ali eu vi de tudo, ficava na frente do postinho da enfermagem. Ouvia: leito tal parou! Atenção!  Podia ver sacos pretos saindo com corpos que a funerária vinha buscar. Vi uma mulher sendo extubada (horrível).

                Ali também pude presenciar o quanto a vida é frágil, a verdade que o que devemos fazer na terra é principalmente amar e perdoar. Eu perdoei naquela cama uma pessoa que eu dizia que jamais perdoaria. Deus limpou meu coração, e me deu uma nova oportunidade para tentar fazer diferente na terra. Nesse interim também quem não falava mais comigo voltou a falar através de uma chamada de vídeo.

                Fui melhorando do quarto dia em diante e então pude fazer chamada de vídeo. Vi todos os meus, muito inchada, algumas vezes de máscara, apenas acenando com um joia, dando-lhes a esperança que iríamos vencer.

                Eu me preocupava com todos, mas com minha mãe era mais, pois sabia o quanto estava sofrendo pela morte do meu irmão (há 15 dias).

                Quando eu via sair um corpo no saco preto, pensava: a próxima poderá ser eu, mas Deus não quis assim, e O agradeço de todo o meu coração por esse milagre imenso.

                Só Deus poderia fazer isso, ninguém mais! E Ele fez!!! Glórias ao Rei do universo!!! Louvores Lhes sejam dados para sempre!

                No momento da dor, do sofrimento, querendo ou não nos aproximamos mais de Deus, pois notamos a falibilidade dos projetos humanos. Percebemos nossa pequenez.

                Não tenho nem palavras para agradecer por esse livramento!

                Na UTI meu nome não era mais Maracy, passei a ser chamada por todos como “O Milagre”. Então eu saia para fazer exames e ouvia alguém dizer: Ah! O Milagre está indo fazer exame!...

                Não posso esquecer que quando sai da UTI ali estava novamente meu pai a me esperar. Lembro-me com alegria de ter ouvido de sua boca pela primeira vez: Glória a Deus!

                Fui para o quarto e pagaram uma cuidadora para mim, a Adriana, uma moça que para sobreviver se submetia a aquele trabalho tão perigoso. Meu melhor banho até hoje foi aquele de quando fui pro quarto. Precisava respirar fundo, porque ainda me sentia fraca, mas estava valendo!

                Depois vieram as sessões de fisioterapia, e fui melhorando. Até que pude voltara para a casa dos meus pais, onde continuei a fisioterapia.

                Quão grande foi a alegria da minha saudosa mãe, e de todos os outros, a quem foram dadas tão poucas esperanças sobre mim.

                Fiquei uns 3 meses ainda no Ceará, pois estava tão fraca, que nem suportava uma viagem de 3 horas num avião. Depois disso minha filha caçula foi me buscar.

                Ficaram algumas sequelas como o stress pós-traumático, mas nada perto do que passei.

                Tento ser uma pessoa melhor, mas evoluo a cada dia, afinal sou humana e sem Deus nada sou. É Ele quem me guia e cuida de mim. Meu desejo é que o Senhor me perdoe as fraquezas e a cada dia me guarde e à minha família debaixo de Suas asas, onde nenhum mal poderá nos alcançar.

                Teria muito mais a dizer, mas hoje fico por aqui.

                Beijos de luz!

 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

 

Lendo Manual do Luto – Carpinejar - e pensando em minha mãe.

 

“Quando se perde o olhar do outro, sua palavra, seu amor, fica-se à deriva. Nada nos consola. Cessam os movimentos da vida... Não mais se rasgam horizontes. Restam as lembranças do amor vivido...” (Carpinejar)

 

Ganhei esse livro Manual do luto de uma pessoa muito especial, que também teve grande perda na vida. Gratidão!

 

Quando em dezembro /2024 deixei minha mãe na porta, chorando, sei que estava me abençoando. Só não sabia que era uma despedida, mas confesso que nunca meu coração tinha ficado tão apertadinho. Chorei demais. Antes um pouco eu tinha a abraçado muito, “cheirado” sua cabeça e dito que em maio estaria de volta.

Minha mãezinha estava passando momentos muito difíceis em sua vida. Eu ficava horrorizada com aquilo, me sentia impotente, mas um dia ela me disse assim: filha, Deus vai fazer uma obra! Mal sabia eu que era recolhê-la. Eu acreditava que as pessoas poderiam mudar em relação a ela, ou que ela pudesse reagir àquela violência a qual vinha se submetendo.

Minha mãe descansou, e isso não é um jargão. Ela realmente estava cansada de viver. Perdeu seu filho em 2021, vítima de Covid, com 39 anos. Carpinejar diz em seu livro que se o filho morre, desaparece na mãe o medo de morrer, o sentido da preservação, a lealdade ao cuidado. E isso aconteceu com minha mãe.

Eu poderia dizer que ela deveria lembrar que tinha mais dois filhos, mas eu entendia sua dor.

“Se desfazer: dói se desfazer do que já foi essencial a uma existência”. (Carpinejar)

No dia que fomos olhar os pertences do meu irmão, vi aquela mulher arrasada ali sentada no chão, entre roupas, relógios, bonés, cadernos e outras coisas mais como as toalhas e camisas de time de futebol de seu filho caçula.

A   ideia era distribuir tudo, mas é como se aquilo fosse rasgando nosso coração em mil pedaços.

Isso aconteceu comigo. Além da dor da perda, eu tive que abrir aquele guarda-roupas da minha mãe com tudo tão caprichado e começar a desfazer o que foi construído em toda uma vida. Eram peças simbólicas demais. Algumas ficaram comigo, o celular também ficou. Os óculos dei ao meu irmão, além de algumas roupas.

Fiquei com a pele (um vestido estampado que a presenteei e ela usava bastante). Fiquei com seu relógio, seu anel e outras coisas...guardo com muito amor e carinho.

As demais coisas doei, como sei que seria seu desejo. As linhas de bordado doei para uma irmã que trabalha com isso.

Ah! Os bordados em ponto cruz... divinos, avesso limpo. Ela nos presenteava tanto. Era tudo personalizado, um luxo.

 

“Não existe maneira de apressar o processo do luto. É a readaptação de existir a partir de uma ausência” (Carpinejar)

 

A pior cena que eu já presenciei na minha vida foi ver minha mãe numa urna funerária: parecia um anjo, adormecida, bela como sempre foi.

Quando recebi a notícia veio a negação. Chorei, fiquei desesperada. Tive que viajar sozinha para tão longe, dormir em hotel... a cada quilômetro rodado de Fortaleza até Orós-CE eu sabia que daria de cara com a pior visualização que um filho pode ter.

Oh mãe! Cadê nossa viagem de maio? Onde você está dá para me ver? Você me escuta? Alguns dizem que não devo chorar porque vou te entristecer. Isso é verdade?!

Aqui está cheio de fotos tuas. És viva na minha casa e no meu coração principalmente.

Se eu pudesse teria trazido tua casa para a minha, cada detalhe ali lembra você mãe! Mas a casa também é do meu pai. Eu não poderia desmontá-la e trazê-la para meu apartamento em São Paulo.

Não fui ainda em tua casa mãe! Ainda não estou pronta. A viagem de maio foi adiada, sabe aquela que tinha te prometido?! Pois é!

 

Cada canto lembra você, cada móvel, o lugar na mesa, o lugar da rede, tua poltrona na sala. Tua máquina de costura está com meu irmão.

Nós pensávamos que aquela mulher iria tentar ocupar teu lugar na casa, mas Deus não quis assim.

Papai hoje está casado novamente, afinal a senhora vivia dizendo que ele não sabia fazer nem um café né?!

Bom, vou ficando por aqui, mas quero te dizer mãe que em alguns momentos espontaneamente me vejo em posição fetal clamando por tua presença.

Esse texto é um mix de reflexões do escritor com meus sentimentos. Talvez quem o leia nem o entenda, mas para mim serviu de desabafo.

Paz e luz!


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

 

O ÓCIO E EU

                Eu me casei muito nova (17 anos), e fui mãe aos 18. Semana que vem eu completo 52 e minhas filhas estão “criadas”, soltas aí nessa vida, mas podem voltar para meu colo quando e sempre quiserem (e às vezes querem).

                Uma mora em Portugal, tem 33 anos, é casada, faz mestrado e tal. Ainda não me deu um neto, e a outra mora aqui em São Paulo, também faz mestrado, tem um namorado e também não me deu um neto. Mentira: a mais velha deu duas netas, as cadelas Manu e Panqueca e a mais nova me deu uma neta gata, de nome Guatarri.

                Estou no segundo casamento, e meu novo marido é um “fofinho”. Moramos eu, ele e a filha dele, de 19 anos.

                Quando eu chego em casa do meu trabalho das 8 às 14h, geralmente está tudo arrumado no apartamento, comida pronta e tal. Ele trabalha à noite, e consequentemente dorme durante o dia. Leva-me e busca-me no trabalho.

                E aí é onde entra o ócio: fico sem saber muito o que fazer nas tardes, e aí criei uma estratégia de deitar ao lado do meu marido, ficar quietinha e cochilar. Quando não conseguia cochilar, tomava Rivotril pra isso. Fuga! Sim! Mas não contava para ninguém. Ao invés de procurar algo producente para fazer eu ia dormir. E assim estava passando a minha vida. Até que me deu uma crise de pânico, pois eu tomava Rivotril e não conseguia dormir, que era a coisa mais maravilhosa que eu achava na vida.

                Quando foi um dia eu resolvi refletir sobre o que estava fazendo com minha vida, e contei para minha psicóloga sobre tomar remédios para dormir ( clonazepan- rivotril), para o qual desenvolvi uma tolerância ( quanto mais tomava, mais queria, e não dormia).

Aí comecei a meio que “enlouquecer” porque minha vida só tinha sentido se eu vivesse dormindo. E isso é vida?! Trabalhar 6 horas para mim, não estava sendo o suficiente, eu precisava de algo para fazer.

Aí lembrei que tinha aqui meu blog, considerado ultrapassado para os jovens, mas vai por aqui mesmo! Hihihi

Vou reativar meu diário, e nele escreverei o que considero que vai contemplar alguns companheiros e companheiras.

Tenho 15.000 seguidores e vou tentar monetizar essa prática, se bem, que só o fato de escrever já me deixa feliz.

Eu criei esse blog quando fiz cirurgia bariátrica, e deixei de escrever há algum tempo, mas é uma forma de extrapolar minhas vivências, meus anseios, minhas perspectivas de vida, enfim.

Em 07 de janeiro de 2024 eu perdi minha mãe por um infarto. Foi a pior perda até então após a do meu irmão em 15 de maio de 2021. Ele tinha 39 anos e foi vítima de Covid. Digo isso porque tem a ver com o ócio, pois quando eles estavam vivos eu conversava mais, nos comunicávamos mais. Tem meu pai e meu outro irmão, mas são muito ocupados.

O blog ajuda porque seus amigos nem sempre estão a fim de ouvir o que você quer dizer: eles também têm seus problemas.

Bom mesmo é ter uma terapeuta como eu tenho que me ensinou várias coisinhas para eu sair dessa do ócio e do sedentarismo. Olha só! Ela me mandou uma listinha de coisinhas para fazer (obviamente é Terapia Cognitivo Comportamental...rs). É assim: criar caixa do pronto socorro- criar cartões de enfrentamento para colocar dentro da caixa (acho que vou achar é uma sacola chique). Esses cartões devem conter frases para eu acessar todos os dias, como por exemplo:

PENSAMENTOS NÃO SÃO FATOS;

OS PROBLEMAS DOS OUTROS SÃO DOS OUTROS;

EU ME VALIDO;

EU SOU CAPAZ;

POSSO NÃO SER A MELHOR, MAS FAÇO O MEU MELHOR;

DEVO ME CONECTAR COM O QUE REALMENTE IMPORTA, MEUS VALORES DE VIDA;

PRECISO DAR ADEUS AOS PENSAMENTOS INTRUSIVOS;

ESTÁ TUDO BEM;

COMO UM MOTORISTA DE ÔNIBUS, DEVO IR DEIXANDO CADA PASSAGEIRO EM SUA PARADA E CONTINUO MEU ITINERÁRIO;

SOBRE LUTO:

EU VIVO MEU LUTO COMO CONSIGO;

A FALTA DA MINHA MÃE, ME FAZ ENTENDER O QUANTO ELA É IMPORTANTE PARA MIM, MAS NÃO DEVE ME PARALISAR, QUERO ENCONTRÁ-LA!

MEU TRABALHO TEM DESAFIOS COMO QUALQUER OUTRO, E EU SOU RESPONSÁVEL APENAS PELO QUE ESTÁ DENTRO DOS MEUS LIMITES.

                Além dessa estratégia das frases minha terapeuta solicitou que realizasse a higiene do sono. Sabe?! Devia[MR1]  existir uma bolsa-terapia mundialmente, até mais que uma bolsa-manicure! Juro! Essas danadas nos ajudam a chegar às verdades que estão ali bem na nossa “cara”. O que é incrível é que ninguém na família é capaz de tal façanha, mas terapeutas são. rs

                Sobre o luto e minha mãezinha passarei a escrever aqui também, pois creio que será uma forma de me conectar maiormente com ela, trazendo para meus leitores, as riquezas do que eu for lendo, como é o caso, que até indico, de O Manual do Luto, de Carpinejar.

                Hoje fico por aqui.

                Beijos de luz!


 [MR1]