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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

 

Lendo Manual do Luto – Carpinejar - e pensando em minha mãe.

 

“Quando se perde o olhar do outro, sua palavra, seu amor, fica-se à deriva. Nada nos consola. Cessam os movimentos da vida... Não mais se rasgam horizontes. Restam as lembranças do amor vivido...” (Carpinejar)

 

Ganhei esse livro Manual do luto de uma pessoa muito especial, que também teve grande perda na vida. Gratidão!

 

Quando em dezembro /2024 deixei minha mãe na porta, chorando, sei que estava me abençoando. Só não sabia que era uma despedida, mas confesso que nunca meu coração tinha ficado tão apertadinho. Chorei demais. Antes um pouco eu tinha a abraçado muito, “cheirado” sua cabeça e dito que em maio estaria de volta.

Minha mãezinha estava passando momentos muito difíceis em sua vida. Eu ficava horrorizada com aquilo, me sentia impotente, mas um dia ela me disse assim: filha, Deus vai fazer uma obra! Mal sabia eu que era recolhê-la. Eu acreditava que as pessoas poderiam mudar em relação a ela, ou que ela pudesse reagir àquela violência a qual vinha se submetendo.

Minha mãe descansou, e isso não é um jargão. Ela realmente estava cansada de viver. Perdeu seu filho em 2021, vítima de Covid, com 39 anos. Carpinejar diz em seu livro que se o filho morre, desaparece na mãe o medo de morrer, o sentido da preservação, a lealdade ao cuidado. E isso aconteceu com minha mãe.

Eu poderia dizer que ela deveria lembrar que tinha mais dois filhos, mas eu entendia sua dor.

“Se desfazer: dói se desfazer do que já foi essencial a uma existência”. (Carpinejar)

No dia que fomos olhar os pertences do meu irmão, vi aquela mulher arrasada ali sentada no chão, entre roupas, relógios, bonés, cadernos e outras coisas mais como as toalhas e camisas de time de futebol de seu filho caçula.

A   ideia era distribuir tudo, mas é como se aquilo fosse rasgando nosso coração em mil pedaços.

Isso aconteceu comigo. Além da dor da perda, eu tive que abrir aquele guarda-roupas da minha mãe com tudo tão caprichado e começar a desfazer o que foi construído em toda uma vida. Eram peças simbólicas demais. Algumas ficaram comigo, o celular também ficou. Os óculos dei ao meu irmão, além de algumas roupas.

Fiquei com a pele (um vestido estampado que a presenteei e ela usava bastante). Fiquei com seu relógio, seu anel e outras coisas...guardo com muito amor e carinho.

As demais coisas doei, como sei que seria seu desejo. As linhas de bordado doei para uma irmã que trabalha com isso.

Ah! Os bordados em ponto cruz... divinos, avesso limpo. Ela nos presenteava tanto. Era tudo personalizado, um luxo.

 

“Não existe maneira de apressar o processo do luto. É a readaptação de existir a partir de uma ausência” (Carpinejar)

 

A pior cena que eu já presenciei na minha vida foi ver minha mãe numa urna funerária: parecia um anjo, adormecida, bela como sempre foi.

Quando recebi a notícia veio a negação. Chorei, fiquei desesperada. Tive que viajar sozinha para tão longe, dormir em hotel... a cada quilômetro rodado de Fortaleza até Orós-CE eu sabia que daria de cara com a pior visualização que um filho pode ter.

Oh mãe! Cadê nossa viagem de maio? Onde você está dá para me ver? Você me escuta? Alguns dizem que não devo chorar porque vou te entristecer. Isso é verdade?!

Aqui está cheio de fotos tuas. És viva na minha casa e no meu coração principalmente.

Se eu pudesse teria trazido tua casa para a minha, cada detalhe ali lembra você mãe! Mas a casa também é do meu pai. Eu não poderia desmontá-la e trazê-la para meu apartamento em São Paulo.

Não fui ainda em tua casa mãe! Ainda não estou pronta. A viagem de maio foi adiada, sabe aquela que tinha te prometido?! Pois é!

 

Cada canto lembra você, cada móvel, o lugar na mesa, o lugar da rede, tua poltrona na sala. Tua máquina de costura está com meu irmão.

Nós pensávamos que aquela mulher iria tentar ocupar teu lugar na casa, mas Deus não quis assim.

Papai hoje está casado novamente, afinal a senhora vivia dizendo que ele não sabia fazer nem um café né?!

Bom, vou ficando por aqui, mas quero te dizer mãe que em alguns momentos espontaneamente me vejo em posição fetal clamando por tua presença.

Esse texto é um mix de reflexões do escritor com meus sentimentos. Talvez quem o leia nem o entenda, mas para mim serviu de desabafo.

Paz e luz!


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