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quarta-feira, 9 de abril de 2025

Querer que todos gostem de mim e que tudo dê certo...

 

         Eu me encontro nessa situação. E para falar a verdade faz bastante tempo, acho que desde que me entendo por gente. O pior é que criei minhas filhas nesses moldes.

         Sempre acho que devo agradar, que não devo dizer não, que tenho que ceder à pressão (até fiquei orgulhosa dia desses porque falei não), mas fica aquela indecisão: será que eu não deveria ter dito sim?!...Fico remoendo, mesmo quando minha chefe me manda relaxar e descansar.

         Nossa! Acho que isso é insegurança demais...

         Ouvi minha vida inteira de minha mãe, que eu não deveria desagradar os outros, mas e eu? Como fico? Eternamente desconfortável?!

         Sou muito vulnerável a opiniões alheias, e preciso ter minhas próprias conclusões, o que a vida acaba nos ensinando.

         Em partes tenho evoluído, mas falta muito ainda...

         Trabalho muito sob pressão, e às vezes me sinto mal por não conseguir servir a todos. Falta eu entender que nem tudo é possível ou está ao meu alcance, mas será que falta eu entender ou eu não consigo por em prática esse entendimento?!

         Ajustes precisam ser feitos, remanejamentos, mudanças, e eu fico com medo de machucar as pessoas. Como pode se trabalhar pensando só nos outros?!

         Eu preciso aceitar de uma vez por todas que não sou a fada madrinha, que não tem o certo e o errado, e que na vida, todo mundo tenta se sair da melhor forma possível, como pode, sem sacrifícios, sem horas de sono jogadas no lixo, sem muitos remédios para dormir a serem tomados.

         Tantas coisas que penso ansiosa e nem são realidade, nem acontecem de fato.

         Mas ser ansiosa, eis o meu grande problema. Fico ruminando coisas, vivendo e sofrendo pelo que talvez nem aconteça, como já não aconteceram muitas vezes. Preciso pensar: isso tem possibilidade até em que ponto de ser real?!

         Já passei por situações quase irreversíveis só por optar em não dizer o que precisava ser dito. Era só dizer com jeitinho, mas nem assim eu conseguia me colocar.

         Às vezes ainda me pego pensando: será que a pessoa vai se vingar? Será que não vai mais falar comigo? Coisas corriqueiras que eu transformo em grandes montanhas, e que apenas precisavam ser expressadas...

         Aquele “quem não tem colírio, usa óculos escuros” parece não ter sentido para mim, porque a qualquer preço eu quero dar o colírio, amenizar o sofrimento dos outros...

         Por que será que eu me preocupo tanto com o que os outros pensam sobre mim? Por que será essa necessidade de ser aceita e ter tudo validado pelos outros?! INSEGURANÇA, FALTA DE AUTO ESTIMA? Só pode ser!!!

         Em que momento da vida poderei me desfazer desses valores? Espero que em breve.

         Muita gente fala algo que não concordo e eu me calo. Não queria ser assim. Guardar sentimentos horríveis que apenas me fazem mal. Tenho que aprender a reivindicar direitos, a ter poder de fala, justo eu que tenho uma profissão que almeja dar voz aos excluídos (serviço social) me vejo calada, quieta, aceitando que me confrontem gratuitamente...

         É isso aí! Preciso mesmo é me dedicar a jogar melhor o jogo que a vida me propõe a cada instante. E aprender que posso ganhar ou perder. O que vale a pena mesmo no final, é ter participado do jogo! ...

 

Beijos de luz!

Mara

SP 09/04/2024

        

 

 

        

 

 

 


quarta-feira, 12 de março de 2025

 

O tempo, a falta de tempo, a educação, o estrelismo  etc

 

Tem coisas que só o tempo de Deus pode resolver. O tempo D’ele não é o nosso. Mas teimamos em achar, ansiosamente, que somos capazes de resolver antes, como se estivesse sob nosso poder.

Já passei por situações difíceis que só próprio tempo pôde resolver. E depois olhamos para trás e dizemos: eu não acredito que superei isso, que venci, enfim, que estou aqui do outro lado do caos que vivi.

As situações se colocam em nossas vidas sem nem mesmo buscá-las. Chegam e te pegam de surpresa, e minha mãe tinha a máxima de dizer: “Não desagrade ninguém!” Aí eu fico me perguntando até que ponto isso é benéfico, pois ao não desagradar o outro, desagrado a mim.

É só ter um jeitinho para falar as coisas necessárias, mas nem sempre a gente tem esse jeitinho, e aí fica ali enroscado na garganta, e pior que o corpo adoece feio.

Sou dessas pessoas que preza pela paz. O barulho, a briga, a discursão me deixam mal. Vou diminuindo o equilíbrio emocional, e daí para uma crise de ansiedade são “dois palitos”.

Ultimamente tenho pensado que cada dia que passamos é um dia a menos e não um dia a mais. Sem querer ser pessimista, mas essa é a realidade. Depois que perdemos um ente querido isso fica mais evidenciado.

Nesse mês fizeram no meu trabalho uma homenagem às funcionárias falecidas, tem frases que falam de legado, muito bonito por sinal. Olhando aquelas fotos me debrucei sobre o pensamento de que parece mentira, elas ali sorrindo, tão lindas. As encontrava nos elevadores, cumprimentava.

Sim, cumprimentava, coisa que fazem bem pouco no meu trabalho.

Eu sempre tive a impressão que quem tinha um doutorado ou um pós-doutorado, espontaneamente teria educação; ledo engano. Quando cheguei no meu local de trabalho, cumprimentava as pessoas e elas ignoravam. Eu ficava muito mal, mas depois entendi que podia não estar bem, ou simplesmente ter o direito de não querer me cumprimentar. Aí passei, infelizmente a não mais jogar meu cumprimento “fora”.

Vê-se cada profissional famoso por seu título e sem um milímetro de educação. Alguns acham até que somos inferiores, no olhar desdenham.

Tive que aprender a lidar com isso, mas confesso que não foi fácil não. Teve uma dessas “profissionais “aí que até gritou, literalmente, comigo, me desrespeitou e à minha profissão, mas felizmente trabalhei em terapia e superei, mas evito, confesso que evito a pessoa para me ver livre do desgaste.

Tem muita gente trabalhando doente, não faz terapia e nós precisamos de terapia para lidar com elas. Quantas vezes chorei por causa de gente que não se trata, não tem a crítica de perceber que precisa de auxílio profissional. O difícil é você ter que compreender a dinâmica adoecedora das pessoas desse tipo.

Tem gente que assume vários plantões em busca do dinheiro e esquece a humanização, o sol, o ar, os bens que Deus nos proporciona gratuitamente.

É uma pena que existam pessoas que não vivem, mas apenas passam pela vida. A soberba cega, a ambição vai matando uma essência boa que talvez houvesse.

Prevalece numa classe profissional que não vou citar, uma questão cultural de superioridade. Nem parece que lidam com a finitude da vida. São pessoas amargas, negativas, arrogantes, doentes, enfim.

Estrelismo: segundo o Google é comportamento característico de quem, sendo ou não um astro ou estrela, exige ser tratado como tal, chegando, por vezes, à arrogância e ao vedetismo (atitude de vedete). Se conheço gente assim que se diz profissional de ponta?! E se conheço... nossa, prefiro parar a crítica por aqui!

Respeito e educação é algo que vem de berço mesmo, como diziam os antigos. De nada adianta ficar tantos anos estudando para sair maltratando os outros gratuitamente. Banco de escola realmente não muda a visão de mundo que a pessoa tem e que parece ter trazido de casa.

Por hoje, fico por aqui. Já fiz o meu desabafo. Quero que todos entendam que não me considero dona da verdade. Eu apenas sou uma pessoa comum que tem algumas inquietações e resolveu escrever para deixar registrado.

Beijos de luz!

 

domingo, 2 de março de 2025

 

DEPRESSÃO – DIAS CINZENTOS, QUASE ESCURIDÃO

 

Ontem, que bom que foi ontem, foi um dia muito difícil. Um misto de tristeza com tristeza e meia, desilusão, desesperança...

Eu sentia uma tristeza tão profunda que chegava a doer meu coração. Meu marido fazia de tudo para resgatar-me, e aí eu ficava pior, por não corresponder à expectativa dele de me ajudar a sair daquela situação.

Meu Deus, eu não queria ser um peso na vida de ninguém. Não queria preocupar as pessoas, mas sozinha não sou capaz de superar.

Meu marido é um anjo que Deus colocou no meu caminho para me ajudar nos momentos mais difíceis da minha jornada nessa terra.

Sabe, quando você tenta fingir que está tudo bem, mas está estampado em seu rosto as marcas da tristeza aguda?

Quem sofre de depressão sabe: a gente sofre duas vezes ou mais. Sofre pela tristeza que parece não ter motivo e por parecer um fardo na vida dos outros, sugando suas energias...

Deve ser horrível tentar fazer de tudo para a pessoa reagir e nada acontecer. Mas tem gente que é resiliente, ainda bem!

Algumas pessoas julgam a depressão, muitas até! Julgam como fraqueza, moleza, julgam que não temos Deus, ledo engano, temos sim! Mas acho que até Deus chora de ver nossa condição quase impossível de resistir.

Até pão com café da tarde foi feito, e nada, nada de reação. Mas felizmente o fim do dia chegou, tomei meus remédios e tive um sono restaurador, um alívio, uma força, ainda que pequena...

No outro dia a pergunta: está melhor? E eu estava, graças a Deus. Limpei a casa, fiz comida, reagi então. Estou esperando minha filha e meu genro. Tomei uma catuaba, ouvi música, chorei, compensei o dia de ontem, que não suportava sequer ouvir uma música.

Nesses relatos sou acompanhada por uma pessoa muito significante na minha vida: minha terapeuta. Ela tem a gentileza e o cuidado de ler meus desabafos, minhas postagens.

Tomara que o que escrevo ajude alguém. Sei que para mim é um alívio poder registrar um pouco da minha vida cheia de altos e baixos, idas e vindas...

Gratidão é o que tenho a quem me ajuda nessa caminhada, longa e árdua caminhada.

Beijos de luz!

 

sábado, 22 de fevereiro de 2025

 

COVID – DOENÇA QUE TROUXE PREJUÍZOS DEMAIS PARA TODOS NÓS.

 

 

                Eu perdi um irmão com seus apenas 39 anos para a Covid em 15 de maio de 2021. Sofremos muito, ele tinha muito a viver. Engraçado, alegre, comunicativo, carismático, cheinho de vida... Uma pessoa fantástica, um irmão amoroso e um filho muito carinhoso.

                Em 15 dias que meu irmão se foi eu entrei na UTI também vítima da Covid – sim, essa doença que o Presidente genocida imitava o povo com falta de ar- entrei com 98% do pulmão comprometido (tenho a tomografia para quem é Tomé). Fiquei 08 dias na UTI, nos primeiros dias com gasometria péssima, os médicos não davam esperança sobre mim...

                Minha mãezinha orava e rogava a Deus que não deixasse ir embora outro filho, pois ela não iria suportar. Ela me disse que gritava desesperada clamando a Deus.

                Não fui entubada, mas quase. Meu irmão faleceu assim que foi entubado, e meu outro irmão pediu à médica que cuidava de mim que não me entubasse, que chamasse uma equipe, que discutisse meu caso.

                Eu estava numa UTI do SUS em Iguatu-CE. Dado o pedido do meu irmão, e dada muito maior a vontade divina, surgiu um médico cubano (Jorge Madrigal) que ali passava para visitar uma paciente sua, e disse que eu não poderia ser entubada, pois morreria, embora todos os instrumentos para tal já estivessem ali ao lado.

                Eu testei positivo em Orós, e de lá no primeiro dia não pude sair para Iguatu (cidades do interior do Ceará), pois meu estado era muito grave e poderia ser que eu não resistisse 60 km numa ambulância. O motorista desta teve que correr muito, pois o oxigênio tinha que ir no máximo, e poderia acabar. Meu pai vinha logo após a ambulância.

                Eu e meu pai havíamos tido uma situação de estresse antes de eu passar mal, mas quando percebi que a morte batia à minha porta, o pedi perdão no caminho do Hospital onde eu nasci. Disse que o amava, tamanho era meu medo de partir sem que ele soubesse disso.

                Chegando em Iguatu fiquei na sala de estabilização. Lembro-me de muitas pessoas ao meu redor, tentando “pegar” veia até nos pés. Eu não lembro de tudo, mas lembro que meu pai não me abandonou um só segundo e depois minha tia Loura chegou para lhe dar suporte. Ela foi num domingo, de carona. Ah tia! Nunca esquecerei disso!

                Soube depois que meu pai passou mal, desmaiou, machucou as costelas, precisou de atendimento, tamanha era a aflição na espera por uma vaga na UTI do SUS. Ali só se conseguia vaga quando alguém morria. Sim! Isso mesmo! Era o auge da doença. E eu não tinha nenhuma possibilidade de ser transferida para onde quer que fosse.

                Minhas filhas e meu marido em SP apenas com notícias que os familiares aflitos passavam ou que o pessoal da UTI passava. Termos técnicos no caso. Meu irmão chegou a dizer ao meu marido que eu não voltaria para casa, tão grande era seu desespero, pois tinha perdido um irmão muito recentemente, mais novo, mais saudável, menos obeso e não tinha asma como eu tenho. Meu marido, por sua vez chorou num quarto escuro por quase 4 dias. Ia trabalhar, mas chorava lá também.

                Os dias na UTI foram difíceis, muito sofrimento, medo da entubação, alerta – não conseguia dormir - banho na cama, alimentação dada pelos técnicos de enfermagem. Máscara de VNI 24 horas direto. A lágrima escorria, mas os fisioterapeutas pediam calma e diziam que era para o meu bem. Os ossos do rosto pareciam quebrados, as gasometrias doíam muito, a falta de ar era horrível. Meu irmão e minha filha alugaram uma outra forma de oxigênio, um catéter, não sei. Sentar-se pela primeira vez foi uma dificuldade enorme.

                Ali eu vi de tudo, ficava na frente do postinho da enfermagem. Ouvia: leito tal parou! Atenção!  Podia ver sacos pretos saindo com corpos que a funerária vinha buscar. Vi uma mulher sendo extubada (horrível).

                Ali também pude presenciar o quanto a vida é frágil, a verdade que o que devemos fazer na terra é principalmente amar e perdoar. Eu perdoei naquela cama uma pessoa que eu dizia que jamais perdoaria. Deus limpou meu coração, e me deu uma nova oportunidade para tentar fazer diferente na terra. Nesse interim também quem não falava mais comigo voltou a falar através de uma chamada de vídeo.

                Fui melhorando do quarto dia em diante e então pude fazer chamada de vídeo. Vi todos os meus, muito inchada, algumas vezes de máscara, apenas acenando com um joia, dando-lhes a esperança que iríamos vencer.

                Eu me preocupava com todos, mas com minha mãe era mais, pois sabia o quanto estava sofrendo pela morte do meu irmão (há 15 dias).

                Quando eu via sair um corpo no saco preto, pensava: a próxima poderá ser eu, mas Deus não quis assim, e O agradeço de todo o meu coração por esse milagre imenso.

                Só Deus poderia fazer isso, ninguém mais! E Ele fez!!! Glórias ao Rei do universo!!! Louvores Lhes sejam dados para sempre!

                No momento da dor, do sofrimento, querendo ou não nos aproximamos mais de Deus, pois notamos a falibilidade dos projetos humanos. Percebemos nossa pequenez.

                Não tenho nem palavras para agradecer por esse livramento!

                Na UTI meu nome não era mais Maracy, passei a ser chamada por todos como “O Milagre”. Então eu saia para fazer exames e ouvia alguém dizer: Ah! O Milagre está indo fazer exame!...

                Não posso esquecer que quando sai da UTI ali estava novamente meu pai a me esperar. Lembro-me com alegria de ter ouvido de sua boca pela primeira vez: Glória a Deus!

                Fui para o quarto e pagaram uma cuidadora para mim, a Adriana, uma moça que para sobreviver se submetia a aquele trabalho tão perigoso. Meu melhor banho até hoje foi aquele de quando fui pro quarto. Precisava respirar fundo, porque ainda me sentia fraca, mas estava valendo!

                Depois vieram as sessões de fisioterapia, e fui melhorando. Até que pude voltara para a casa dos meus pais, onde continuei a fisioterapia.

                Quão grande foi a alegria da minha saudosa mãe, e de todos os outros, a quem foram dadas tão poucas esperanças sobre mim.

                Fiquei uns 3 meses ainda no Ceará, pois estava tão fraca, que nem suportava uma viagem de 3 horas num avião. Depois disso minha filha caçula foi me buscar.

                Ficaram algumas sequelas como o stress pós-traumático, mas nada perto do que passei.

                Tento ser uma pessoa melhor, mas evoluo a cada dia, afinal sou humana e sem Deus nada sou. É Ele quem me guia e cuida de mim. Meu desejo é que o Senhor me perdoe as fraquezas e a cada dia me guarde e à minha família debaixo de Suas asas, onde nenhum mal poderá nos alcançar.

                Teria muito mais a dizer, mas hoje fico por aqui.

                Beijos de luz!

 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

 

Lendo Manual do Luto – Carpinejar - e pensando em minha mãe.

 

“Quando se perde o olhar do outro, sua palavra, seu amor, fica-se à deriva. Nada nos consola. Cessam os movimentos da vida... Não mais se rasgam horizontes. Restam as lembranças do amor vivido...” (Carpinejar)

 

Ganhei esse livro Manual do luto de uma pessoa muito especial, que também teve grande perda na vida. Gratidão!

 

Quando em dezembro /2024 deixei minha mãe na porta, chorando, sei que estava me abençoando. Só não sabia que era uma despedida, mas confesso que nunca meu coração tinha ficado tão apertadinho. Chorei demais. Antes um pouco eu tinha a abraçado muito, “cheirado” sua cabeça e dito que em maio estaria de volta.

Minha mãezinha estava passando momentos muito difíceis em sua vida. Eu ficava horrorizada com aquilo, me sentia impotente, mas um dia ela me disse assim: filha, Deus vai fazer uma obra! Mal sabia eu que era recolhê-la. Eu acreditava que as pessoas poderiam mudar em relação a ela, ou que ela pudesse reagir àquela violência a qual vinha se submetendo.

Minha mãe descansou, e isso não é um jargão. Ela realmente estava cansada de viver. Perdeu seu filho em 2021, vítima de Covid, com 39 anos. Carpinejar diz em seu livro que se o filho morre, desaparece na mãe o medo de morrer, o sentido da preservação, a lealdade ao cuidado. E isso aconteceu com minha mãe.

Eu poderia dizer que ela deveria lembrar que tinha mais dois filhos, mas eu entendia sua dor.

“Se desfazer: dói se desfazer do que já foi essencial a uma existência”. (Carpinejar)

No dia que fomos olhar os pertences do meu irmão, vi aquela mulher arrasada ali sentada no chão, entre roupas, relógios, bonés, cadernos e outras coisas mais como as toalhas e camisas de time de futebol de seu filho caçula.

A   ideia era distribuir tudo, mas é como se aquilo fosse rasgando nosso coração em mil pedaços.

Isso aconteceu comigo. Além da dor da perda, eu tive que abrir aquele guarda-roupas da minha mãe com tudo tão caprichado e começar a desfazer o que foi construído em toda uma vida. Eram peças simbólicas demais. Algumas ficaram comigo, o celular também ficou. Os óculos dei ao meu irmão, além de algumas roupas.

Fiquei com a pele (um vestido estampado que a presenteei e ela usava bastante). Fiquei com seu relógio, seu anel e outras coisas...guardo com muito amor e carinho.

As demais coisas doei, como sei que seria seu desejo. As linhas de bordado doei para uma irmã que trabalha com isso.

Ah! Os bordados em ponto cruz... divinos, avesso limpo. Ela nos presenteava tanto. Era tudo personalizado, um luxo.

 

“Não existe maneira de apressar o processo do luto. É a readaptação de existir a partir de uma ausência” (Carpinejar)

 

A pior cena que eu já presenciei na minha vida foi ver minha mãe numa urna funerária: parecia um anjo, adormecida, bela como sempre foi.

Quando recebi a notícia veio a negação. Chorei, fiquei desesperada. Tive que viajar sozinha para tão longe, dormir em hotel... a cada quilômetro rodado de Fortaleza até Orós-CE eu sabia que daria de cara com a pior visualização que um filho pode ter.

Oh mãe! Cadê nossa viagem de maio? Onde você está dá para me ver? Você me escuta? Alguns dizem que não devo chorar porque vou te entristecer. Isso é verdade?!

Aqui está cheio de fotos tuas. És viva na minha casa e no meu coração principalmente.

Se eu pudesse teria trazido tua casa para a minha, cada detalhe ali lembra você mãe! Mas a casa também é do meu pai. Eu não poderia desmontá-la e trazê-la para meu apartamento em São Paulo.

Não fui ainda em tua casa mãe! Ainda não estou pronta. A viagem de maio foi adiada, sabe aquela que tinha te prometido?! Pois é!

 

Cada canto lembra você, cada móvel, o lugar na mesa, o lugar da rede, tua poltrona na sala. Tua máquina de costura está com meu irmão.

Nós pensávamos que aquela mulher iria tentar ocupar teu lugar na casa, mas Deus não quis assim.

Papai hoje está casado novamente, afinal a senhora vivia dizendo que ele não sabia fazer nem um café né?!

Bom, vou ficando por aqui, mas quero te dizer mãe que em alguns momentos espontaneamente me vejo em posição fetal clamando por tua presença.

Esse texto é um mix de reflexões do escritor com meus sentimentos. Talvez quem o leia nem o entenda, mas para mim serviu de desabafo.

Paz e luz!


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

 

O ÓCIO E EU

                Eu me casei muito nova (17 anos), e fui mãe aos 18. Semana que vem eu completo 52 e minhas filhas estão “criadas”, soltas aí nessa vida, mas podem voltar para meu colo quando e sempre quiserem (e às vezes querem).

                Uma mora em Portugal, tem 33 anos, é casada, faz mestrado e tal. Ainda não me deu um neto, e a outra mora aqui em São Paulo, também faz mestrado, tem um namorado e também não me deu um neto. Mentira: a mais velha deu duas netas, as cadelas Manu e Panqueca e a mais nova me deu uma neta gata, de nome Guatarri.

                Estou no segundo casamento, e meu novo marido é um “fofinho”. Moramos eu, ele e a filha dele, de 19 anos.

                Quando eu chego em casa do meu trabalho das 8 às 14h, geralmente está tudo arrumado no apartamento, comida pronta e tal. Ele trabalha à noite, e consequentemente dorme durante o dia. Leva-me e busca-me no trabalho.

                E aí é onde entra o ócio: fico sem saber muito o que fazer nas tardes, e aí criei uma estratégia de deitar ao lado do meu marido, ficar quietinha e cochilar. Quando não conseguia cochilar, tomava Rivotril pra isso. Fuga! Sim! Mas não contava para ninguém. Ao invés de procurar algo producente para fazer eu ia dormir. E assim estava passando a minha vida. Até que me deu uma crise de pânico, pois eu tomava Rivotril e não conseguia dormir, que era a coisa mais maravilhosa que eu achava na vida.

                Quando foi um dia eu resolvi refletir sobre o que estava fazendo com minha vida, e contei para minha psicóloga sobre tomar remédios para dormir ( clonazepan- rivotril), para o qual desenvolvi uma tolerância ( quanto mais tomava, mais queria, e não dormia).

Aí comecei a meio que “enlouquecer” porque minha vida só tinha sentido se eu vivesse dormindo. E isso é vida?! Trabalhar 6 horas para mim, não estava sendo o suficiente, eu precisava de algo para fazer.

Aí lembrei que tinha aqui meu blog, considerado ultrapassado para os jovens, mas vai por aqui mesmo! Hihihi

Vou reativar meu diário, e nele escreverei o que considero que vai contemplar alguns companheiros e companheiras.

Tenho 15.000 seguidores e vou tentar monetizar essa prática, se bem, que só o fato de escrever já me deixa feliz.

Eu criei esse blog quando fiz cirurgia bariátrica, e deixei de escrever há algum tempo, mas é uma forma de extrapolar minhas vivências, meus anseios, minhas perspectivas de vida, enfim.

Em 07 de janeiro de 2024 eu perdi minha mãe por um infarto. Foi a pior perda até então após a do meu irmão em 15 de maio de 2021. Ele tinha 39 anos e foi vítima de Covid. Digo isso porque tem a ver com o ócio, pois quando eles estavam vivos eu conversava mais, nos comunicávamos mais. Tem meu pai e meu outro irmão, mas são muito ocupados.

O blog ajuda porque seus amigos nem sempre estão a fim de ouvir o que você quer dizer: eles também têm seus problemas.

Bom mesmo é ter uma terapeuta como eu tenho que me ensinou várias coisinhas para eu sair dessa do ócio e do sedentarismo. Olha só! Ela me mandou uma listinha de coisinhas para fazer (obviamente é Terapia Cognitivo Comportamental...rs). É assim: criar caixa do pronto socorro- criar cartões de enfrentamento para colocar dentro da caixa (acho que vou achar é uma sacola chique). Esses cartões devem conter frases para eu acessar todos os dias, como por exemplo:

PENSAMENTOS NÃO SÃO FATOS;

OS PROBLEMAS DOS OUTROS SÃO DOS OUTROS;

EU ME VALIDO;

EU SOU CAPAZ;

POSSO NÃO SER A MELHOR, MAS FAÇO O MEU MELHOR;

DEVO ME CONECTAR COM O QUE REALMENTE IMPORTA, MEUS VALORES DE VIDA;

PRECISO DAR ADEUS AOS PENSAMENTOS INTRUSIVOS;

ESTÁ TUDO BEM;

COMO UM MOTORISTA DE ÔNIBUS, DEVO IR DEIXANDO CADA PASSAGEIRO EM SUA PARADA E CONTINUO MEU ITINERÁRIO;

SOBRE LUTO:

EU VIVO MEU LUTO COMO CONSIGO;

A FALTA DA MINHA MÃE, ME FAZ ENTENDER O QUANTO ELA É IMPORTANTE PARA MIM, MAS NÃO DEVE ME PARALISAR, QUERO ENCONTRÁ-LA!

MEU TRABALHO TEM DESAFIOS COMO QUALQUER OUTRO, E EU SOU RESPONSÁVEL APENAS PELO QUE ESTÁ DENTRO DOS MEUS LIMITES.

                Além dessa estratégia das frases minha terapeuta solicitou que realizasse a higiene do sono. Sabe?! Devia[MR1]  existir uma bolsa-terapia mundialmente, até mais que uma bolsa-manicure! Juro! Essas danadas nos ajudam a chegar às verdades que estão ali bem na nossa “cara”. O que é incrível é que ninguém na família é capaz de tal façanha, mas terapeutas são. rs

                Sobre o luto e minha mãezinha passarei a escrever aqui também, pois creio que será uma forma de me conectar maiormente com ela, trazendo para meus leitores, as riquezas do que eu for lendo, como é o caso, que até indico, de O Manual do Luto, de Carpinejar.

                Hoje fico por aqui.

                Beijos de luz!


 [MR1]

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Deus do impossível fez um milagre para mim.

 Para começar digo que não existe meio milagre, muito menos milagre grande ou pequeno. É milagre, e pronto.


Passei umas semanas muito atribuladas em maio e junho de 2023. Para mim, a causa estava perdida.

Quando a angústia é grande o coração nem sabe o que fazer: se chora, se cala... dá um vazio, uma "agonia" na cabeça, e medo, muito medo de tudo ocorrer da pior forma possível.

Não vou expor o problema aqui, mas era enorme, e talvez eu tivesse que enfrentar um longo e desgastante processo judicial, mas Deus não quis assim.

 Ele exaltou-me, pois estava cabisbaixa, ouviu meu clamor, da minha mãe, e de todos os que oraram por mim. Mamãe dizia, eu tenho certeza que Deus te socorrerá! Mas sabe como é...às vezes somos meio "Tomé" - homem da bíblia que duvidou quando viu Jesus.

Era uma causa que envolvia pessoas "grandes", e estas me humilharam muito. Chamaram-me de"talzinha", fecharam todos os caminhos para que eu pudesse reivindicar meus direitos. 

E-mails voltavam, telefonemas eram com tons hostis, enfim, não havia mais o que fazer, e aí Deus entrou derrubando tudo, mexendo nos corações, provando que Ele não precisa pedir licença a ninguém e trabalhou ao meu favor, derrubou muralhas, e fez até meu inimigo me pedir desculpas.

É por isso que eu sempre penso que sem Deus nada somos, e devemos honrá-lo todo o tempo, desinteressados, mas sabendo que Ele, mesmo em silêncio, está ali bem pertinho de nós, segurando em nossas mãos.

Gratidão Senhor! Mil vezes obrigada. Continua a nos auxiliar e  resolver tudo o que o homem não é, nem nunca será capaz de fazer.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

 

O que será de nós, afinal?!

Estamos a 06 dias da eleição presidencial no Brasil e para governador de São Paulo, segundo turno, e tenho algumas confissões a fazer:

Estou decepcionada com a igreja da qual fui membro tantos anos, pois querendo ou não, acabou se corrompendo com discurso indireto de ideologia de gênero e mentiras sobre o aborto e outras coisinhas mais. Sobre o aborto tenho a dizer, que dependendo do caso, é DIREITO  sim da mulher. O que tenho visto por aí, infiltrado em meio aos que se dizem crentes, não sei em quem, são homens grosseiros, que pensam que são donos das mulheres e usam isso de forma velada pata mantê-las sob os seus pés, executando muitas vezes crimes sexuais e psicológicos.

Sobre igrejas evangélicas a decepção é enorme também porque ao invés de louvores, se cantam musiquinhas de campanha. O que diria Jesus ao chegar num templo desses???!Fico admirada, pois o verdadeiro crente, que conhece a Deus e a bíblia não faz sinal de arminha, não apóia quem é referência de milicianos, não prega o ódio, a discórdia, a mentira e a falsidade.

O crente de verdade sabe a quem serve, e sabe sobre o livre arbítrio, isso se não for alienado. E pra quem não sabe o que é ser alienado, de uma forma bem simples: aquele que deixa que o outro pense por si, que não tem crítica, que não consegue decidir sozinho, que não procura conhecer profundamente os fatos, e vive de repetir o que os outros fazem.

Nesta eleição não é sobre direita ou esquerda, é sobre gente, pessoas que pensam, que sofrem, que perdem, mas também ganham a experiência de descobrir com quem se convive e quais são suas ideologias, como sentem-se representados, o que prova que pensam igualmente.

Sobre o atual presidente expressar que pintou um clima com garotas de 14 anos, fico abismada com a falta de capacidade das pessoas se colocarem no lugar do outro, a tal da empatia, que quase ninguém sabe o que é. E se fosse com sua filha, sua mulher, sua sobrinha, ou alguma pessoa do sexo feminino da sua família???! Você quer dizer que não entende que isso tem conotação estritamente sexual???! Se ele se reeleger se cumprirá o que Deus diz na bíblia, que o povo tem o Governo que merece, mas sinceramente, eu não me sinto feliz de ter que estar no meio desse povo.

Sobre vacina, negacionismo, falta de credibilidade com a ciência nem sei como começar a falar. Independente de alguns vacinados terem morrido, creio piamente que todos tinham o direito de ser vacinados, pois o genocida não comprou a vacina quando tinha porque não quis, preferiu ficar receitando cloroquina, sem base científica alguma, sem noção, completamente. Preferiu zombar da dor e do sofrimento de tantos que perderam seus entes queridos, ainda por cima com deboche, imitando pessoas com falta de ar e dizendo que não era coveiro. Será que pensa que é imortal?!

Carrega muitas mortes nas costas, que peso devo sentir, atrás daquele sorriso debochado e falso que expressa. Uma pessoa dessas não pode ser feliz, a menos que felicidade seja apenas dinheiro. E por falar em dinheiro, qual a diferença mesmo de roubar e roubar em espécie???! Não estou dizendo rouba, mas faz, estou dizendo que sigilo de cem anos é para covardes, é para quem não se deixa investigar e não tem coragem de se entregar para a polícia e esperar ser julgado e preso para não participar das eleições, como fez o ex-presidente. Quem não deve, não deve temer. Até que se prove o contrário roubo é roubo, especulação é apenas especulação.

Agora, o que admira também é o pobre de direita. Acorda! Seu patrão já ganhou a vida, e sobre você só há exploração. Você só serve enquanto produz, nem doente tem o direito de ficar. O rico está sendo sincero, está exercendo seu verdadeiro papel, apoiar quem o apoia, mas você que vai no mercado e não consegue trazer o mínimo para seus filhos devido a inflação desregrada, fruto de um desgoverno, de um incompetente, que diz que não há fome no Brasil. ...Claro! Onde ele mora não tem mesmo pessoas pedindo, com fome, ou em situação de rua, fica lá na sua bolha, enquanto aqui fora o povo pena.

Campanha eleitoreira mais baixa que pude presenciar até hoje: que eleva o preço do gás e oferece vale gás, que eleva e abaixa o preço da gasolina dependendo do que é conveniente, que dá esmolas a taxistas e caminhoneiros, profissionais que não precisam disso, que merecem,  assim como nós, dignidade. Mente, diz que aprovou auxílio de valor superior, sendo que foi o Senado que elevou o valor e compara o antigo Bolsa Família com esse Auxílio Brasil, esquecendo do poder de compra. Para os mais leigos poder de compra é: se comprava muito mais com aquele valor, que com este, irrisório  para os dias atuais.

Confesso que estou triste com muitos posicionamentos, e que agora é orar para Deus ter misericórdia de nós, minorias, que vimos sendo hostilizadas e escravizadas injustamente por uma nação egoísta e excludente.

 

Maracy Rolim

SP 24 de outubro de 2022.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Apenas eu tentando evoluir.

 

Eu em mim...

Eu não sei para quem eu estou escrevendo nesse momento, talvez seja para mim mesma, na intenção de validar todo o processo pelo qual venho passando.

Sabe, eu venho de uma história de diagnóstico errado há 48 anos, e isso não se transforma do dia para a noite. No entanto, sem me vitimizar ou terceirizar minhas formas equivocadas de agir e reagir eu tenho me esforçado muito para reparar  todos os danos que eu causei a mim mesma e  às pessoas que tanto amo, as quais acabei, sem crítica alguma fazendo sofrer.

Quando uma doença existe, mas não é manifestada ou notada por quem a tem, ela não é tratada, assim como um tumor, que demora anos para crescer, e de repente aparece e, logo estoura.

Tenho passado algumas coisas na vida, umas devo esquecer, e outras comemorar.

Do ponto de vista de quem me viu há algum tempo talvez ainda não dê para visualizar todo o meu esforço para mudar, mas eu sei o quanto esse processo tem sido doloroso e ao mesmo tempo tem servido para eu evoluir. Minha escolha pela mudança é sagrada, e por isso precisa ser comemorada e não criticada. Eu não devo me punir.

Eu não era jamais capaz de pensar sobre as consequências do que os meus atos produziam. Aprendi que preciso evoluir, e que o sofrimento, louvavelmente faz parte desse crescimento.

Uma escolha se torna sagrada pelo sacrifício, que eu tenho que valorizar como algo positivo.

Eu preciso soltar todas as lágrimas, lavar mesmo a alma, e comemorar por cada etapa vencida que hoje apenas eu, talvez, seja capaz de visualizar. Preciso valorizar a minha vida e todos que tenho. Preciso entender que se Deus me deu uma outra oportunidade de viver foi para fazer diferente.

Todo processo é feito de etapas, mas hoje estabeleci metas a cumprir, e preciso me abraçar, me amar e validar o que tenho conquistado. Não preciso mais fazer contas, sei até onde posso ir, mas já fui longe e preciso ter paciência para as coisas voltarem aos seus devidos lugares. Não falta tanto!...

A compulsividade me levou a escolhas extremas, e o prejuízo disso ficou, mas eu preciso entender que apenas eu poderei reparar o que fiz.

Não quero a culpa nem a vitimização, quero apenas erguer minha cabeça um dia e dizer que valeu a pena mudar.

Hoje consigo enxergar o que é supérfluo, que não devemos nos vingar das pessoas gastando seu dinheiro, que as coisas custam caro, que as pessoas lutam muito para sobreviver, e que algumas apenas vivem, sem reclamar, às vezes com tão pouco.

O processo: quando estamos na cegueira não acolhemos o conselho de ninguém. A cura tem que vir de dentro para fora.

Sou imensamente agradecida por todos que , de alguma forma, me ajudaram e me ajudam nesta caminhada, neste processo, mas também agradeço a mim, pois em meio a esse turbilhão de pensamentos, culpas e sensações de fracasso, continuo aqui tentando dar o meu melhor, ainda que isso ainda não apareça para muitos.

Eu espero de coração que as pessoas me ajudem valorizando o que conquistei, e venho conquistando a cada instante, mas entendo que a imagem da mulher compulsiva, descontrolada ou irresponsável demore um pouco para sair de alguns corações e mentes. Talvez só no final do processo eu conquiste isso, mas está valendo!

Eu ainda tenho muito a aprender, mas sou grata por hoje poder enxergar isso, pela lucidez que o meu tratamento e os meus esforços tem me proporcionado viver e pelo apoio incondicional de quem me ama e só quer ver o meu bem.

Só peço uma coisa: que tanto eu quanto os outros respeitem o meu tempo e entendam que nem tudo foi de caso pensado, planejado ou deliberado.

Eu me amo, eu me esforço e eu sou digna de reconhecimento próprio, motivo de comemoração e não de culpabilização.

Reerguer-se depende de mim, mas processo é processo!... E aí sairei aos poucos reparando o que fiz ou, de repente, deixei de fazer.

 

 

Maracy Rolim Bezerra

SP 07 de fevereiro de 2022

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Maio de 2021

 

Maio de 2021

 

Este mês foi definitivamente, até hoje, o pior mês da minha vida, pois perdi meu irmão, meu menino de 39 anos para a Covid 19. Sem poder chorar direito para não assustar minha mãe, a qual eu acompanhava no Hospital São Vicente, na ala de Covid, eu ouvia e lia a cada dia sobre sua piora e diversas tentativas que acredito trem sido sofridas para ele,de reverter seu quadro, todas, infelizmente sem sucesso.

 

No auge da emoção em 13 de maio de 2021 eu fui para o Ceará ser acompanhante da minha mãe, como mencionado acima, no Hospital São Vicente, em Iguatu-CE. Pois é, creiam, ser acompanhante numa ala exclusivamente Covid (protocolo irresponsável dessa Instituição, pois entravam e saiam a todo instante as mais diferenciadas pessoas, algumas também com a doença).

 

E lá estava eu, no intuito de confortar minha mãe com minha simples presença e assim amenizar a sua dor, caso acontecesse o pior. O que em 15 de maio realmente aconteceu: meu irmão se foi, sem despedida, sem flores e nem versos. Num caixão lacrado foram embora sorrisos, sonhos e parte muito significativas de nossa alegria, hoje transformada em saudades e dor, manifestadas cada um à sua forma, uns com lágrimas, outros com música homenageando, outros, muitos outros, com orações.

 

Recebemos pouquíssimas visitas, típico da ocasião ou do tempo em que todos temiam transmitir ou adquirir a doença maldita que veio para matar e destruir indiscriminadamente, jovens e velhos, ricos e pobres, pretos e brancos, saudáveis e doentes, tristes e alegres, enfim...

 

Eu, meu pai e meu irmão, agimos com a emoção, e eu fiquei de acompanhante da minha mãe, e doía demasiadamente quando ela dizia aos profissionais que lhe perguntavam sobre seu filho, que ele estava melhorando, quando não sabia sequer que ele já havia sido até intubado, o que ela mais temia. E eu saia e entrava do quarto disfarçando que havia saído para utilizar um banheiro externo. E eu recebia ligações e mais ligações dizendo do estado crítico do meu irmão, mas voltava firme, tentando mostrar que nada demais estaria para acontecer.

Desde minha saída de SP eu tinha uma triste certeza dentro de mim que meu irmão não resistiria, mas eu sentia-me mal em pensar aquilo, perguntava a Deus onde estava minha fé em Seu poder. Era algo que confesso, eu não gostava de sentir.

Voltando para minha mãe: meu irmão do meio, com todo o seu zelo, pediu-me para tentar retirar o celular das mãos de nossa mãe, pois temia que ela visualizasse algum comentário triste sobre nosso caçulinha nas redes sociais. Pedi à enfermeira que retirasse, mas explicou que estando lúcida e orientada, o máximo que poderia fazer seria aconselhar minha mãe a não ficar tanto na internet, e assim o fez.

Mamãe não hesitou em me passar o celular, mas de vez em quando o pedia de volta, e em mim, a dor de saber do meu irmão, a dor de ver minha mãe enganada e a preocupação que ela soubesse algo através das redes sociais, exatamente como aconteceu comigo, sim, comigo, pois meu primo enviou um print de uma linda homenagem que um amigo tinha feito se despedindo do meu irmão.

Meu mundo se abriu, o hospital não havia comunicado isso! Como assim? Quem? Por que? Onde? Quando? De que forma? O que faço agora? Foram alguns dos pensamentos que me sobrevieram, como um turbilhão.

Então fui ao tal banheiro externo e liguei para meu irmão. Deu sinal de ocupado. Liguei para minha cunhada e perguntei com um medo tremendo da resposta ser positiva: meu irmão morreu? Ela respondeu: infelizmente sim Mara! Procurei apoio, um abraço, um aconchego, e confesso que nem sabia o que sentia naquele momento, um misto de revolta, dor e preocupação.

E depois as notícias sobre os protocolos funerários para quem falecia desta doença maldita, protocolos estes que impediram meu outro irmão de abraçar nosso amado que naquele momento encontrava-se quase irreconhecível, segundo nos informou, o que o viu pela última vez.

Sabe, o que mais dói? É essa última vez, é esse nunca mais...

E agora? Como contar para mamãe, e como e com quem estaria meu pai? Como meu irmão estaria resolvendo tudo de trâmites burocráticos sozinho? E minha fé, por que não foi suficiente? Será que foi isso? Mas minha mãe tinha muita fé... Tanta, que no momento da comunicação do óbito, tentávamos dizê-la de uma forma mais sutil, mas ela não entendia. Meu pai chegou a dizer: Eh Socorro! Se você tiver a mesma “sorte” de sua mãe de enterrar filho...Mesmo assim ela não compreendeu a mensagem, então meu pai pegou em sua perna e disse: Socorro, nosso filho está com Deus!

Esse foi o momento mais difícil no que diz respeito a minha mãe, sua reação foi dolorosa. Gritava com as duas mãos na cabeça dizendo que Deus não a ouviu, que a esqueceu, dizendo-lhe o quanto de fé tinha no coração.

Eu, nem sei como, tive a ideia de avisar a equipe antes, para o caso de uma possível reação mais inesperada no que diz respeito ao seu quadro de saúde. O médico deixou calmantes prescritos. Sim, servem, mas o que são calmantes para uma dor tão imensurável, não é?!

E assim prosseguimos: meu irmão ficou com a parte mais difícil: reconhecer o corpo sem poder abraça-lo, receber seus pertences, providenciar os trâmites junto à funerária, providenciar atestado de óbito e por fim correr atrás da pensão dos 03 sobrinhos que nosso irmão nos deixou. Não foi só isso, assim só ele saberia contar sua aflição e dor. Ele teve que se fazer de forte na hora que eu sabia que o mais queria era chorar e ter o direito de sentir sua/nossa dor.

Perceba-se que estávamos todos separados: Papai em Orós, também com Covid 19, meus irmãos em Juazeiro e eu e mamãe no Iguatu.

No dia do sepultamento meu irmão juntou-se ao meu pai e aos demais, devido o protocolo, poucas pessoas compareceram, mas eu soube com uma tia gritava:Vai meu filho, vai em paz!!!

Papai me ligou desesperado, chorando e me dizendo que tinha certeza que aquele não era o filho dele, afinal não o viu e não acreditava que tratava-se do corpo de seu caçulinha. Sobre papai contarei depois mais detalhadamente, sua força, sua garra, disposição, proatividade e dedicação incondicional para conosco. Meu Deus! Eu não tinha palavras para responder!

E aí veio o sentimento ainda maior de revolta contra um governo genocida que jamais seria capaz de imaginar nossa dor e a de milhões de brasileiros devido seu capricho que não haver comprado vacinas quando já havia disponibilidade. Agora em 07 de setembro dilacerou meu coração ver tanta gente na Av. Paulista apoiando aquele homem sem coração, embora eu saiba, que muitos ali foram pagos para estar naquela posição, o que também incomoda muito.

Os dias se passaram, e eu percebia que mesmo inconscientemente mamãe estava resistente à alta, afinal se confrontaria com sua casa, cenário que lembra e lembrou absurdamente meu irmão. Tudo parecia ter um pouco dele: o quarto, o copo, as roupas, seus perfumes,  os relógios, o computador, as senhas da internet, os remédios que sobraram, as fotos, as homenagens nas redes sociais, depois as malas, muitas malas com escritas suas, com lembranças do seu sorriso tão contagiante e seu abraço tão acolhedor.

Eu confesso que chorava escondido, mas meu desejo mesmo era de ir num lugar deserto e gritar com todas as minhas forças: meu irmão, por que nos deixou? Onde estás? Podes me ouvir?!... Perdoa-me por tudo que te fiz de mal e por tudo que deixamos de viver juntos por achar que esse dia demoraria tanto a chegar. Finalizaria a gritar: Eu te amo! Eu te amo! Tem gente que pergunta: mas por que gritar? Ué! Cada um tem seu jeito de expressar a dor, lembra?!