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sábado, 22 de fevereiro de 2025

 

COVID – DOENÇA QUE TROUXE PREJUÍZOS DEMAIS PARA TODOS NÓS.

 

 

                Eu perdi um irmão com seus apenas 39 anos para a Covid em 15 de maio de 2021. Sofremos muito, ele tinha muito a viver. Engraçado, alegre, comunicativo, carismático, cheinho de vida... Uma pessoa fantástica, um irmão amoroso e um filho muito carinhoso.

                Em 15 dias que meu irmão se foi eu entrei na UTI também vítima da Covid – sim, essa doença que o Presidente genocida imitava o povo com falta de ar- entrei com 98% do pulmão comprometido (tenho a tomografia para quem é Tomé). Fiquei 08 dias na UTI, nos primeiros dias com gasometria péssima, os médicos não davam esperança sobre mim...

                Minha mãezinha orava e rogava a Deus que não deixasse ir embora outro filho, pois ela não iria suportar. Ela me disse que gritava desesperada clamando a Deus.

                Não fui entubada, mas quase. Meu irmão faleceu assim que foi entubado, e meu outro irmão pediu à médica que cuidava de mim que não me entubasse, que chamasse uma equipe, que discutisse meu caso.

                Eu estava numa UTI do SUS em Iguatu-CE. Dado o pedido do meu irmão, e dada muito maior a vontade divina, surgiu um médico cubano (Jorge Madrigal) que ali passava para visitar uma paciente sua, e disse que eu não poderia ser entubada, pois morreria, embora todos os instrumentos para tal já estivessem ali ao lado.

                Eu testei positivo em Orós, e de lá no primeiro dia não pude sair para Iguatu (cidades do interior do Ceará), pois meu estado era muito grave e poderia ser que eu não resistisse 60 km numa ambulância. O motorista desta teve que correr muito, pois o oxigênio tinha que ir no máximo, e poderia acabar. Meu pai vinha logo após a ambulância.

                Eu e meu pai havíamos tido uma situação de estresse antes de eu passar mal, mas quando percebi que a morte batia à minha porta, o pedi perdão no caminho do Hospital onde eu nasci. Disse que o amava, tamanho era meu medo de partir sem que ele soubesse disso.

                Chegando em Iguatu fiquei na sala de estabilização. Lembro-me de muitas pessoas ao meu redor, tentando “pegar” veia até nos pés. Eu não lembro de tudo, mas lembro que meu pai não me abandonou um só segundo e depois minha tia Loura chegou para lhe dar suporte. Ela foi num domingo, de carona. Ah tia! Nunca esquecerei disso!

                Soube depois que meu pai passou mal, desmaiou, machucou as costelas, precisou de atendimento, tamanha era a aflição na espera por uma vaga na UTI do SUS. Ali só se conseguia vaga quando alguém morria. Sim! Isso mesmo! Era o auge da doença. E eu não tinha nenhuma possibilidade de ser transferida para onde quer que fosse.

                Minhas filhas e meu marido em SP apenas com notícias que os familiares aflitos passavam ou que o pessoal da UTI passava. Termos técnicos no caso. Meu irmão chegou a dizer ao meu marido que eu não voltaria para casa, tão grande era seu desespero, pois tinha perdido um irmão muito recentemente, mais novo, mais saudável, menos obeso e não tinha asma como eu tenho. Meu marido, por sua vez chorou num quarto escuro por quase 4 dias. Ia trabalhar, mas chorava lá também.

                Os dias na UTI foram difíceis, muito sofrimento, medo da entubação, alerta – não conseguia dormir - banho na cama, alimentação dada pelos técnicos de enfermagem. Máscara de VNI 24 horas direto. A lágrima escorria, mas os fisioterapeutas pediam calma e diziam que era para o meu bem. Os ossos do rosto pareciam quebrados, as gasometrias doíam muito, a falta de ar era horrível. Meu irmão e minha filha alugaram uma outra forma de oxigênio, um catéter, não sei. Sentar-se pela primeira vez foi uma dificuldade enorme.

                Ali eu vi de tudo, ficava na frente do postinho da enfermagem. Ouvia: leito tal parou! Atenção!  Podia ver sacos pretos saindo com corpos que a funerária vinha buscar. Vi uma mulher sendo extubada (horrível).

                Ali também pude presenciar o quanto a vida é frágil, a verdade que o que devemos fazer na terra é principalmente amar e perdoar. Eu perdoei naquela cama uma pessoa que eu dizia que jamais perdoaria. Deus limpou meu coração, e me deu uma nova oportunidade para tentar fazer diferente na terra. Nesse interim também quem não falava mais comigo voltou a falar através de uma chamada de vídeo.

                Fui melhorando do quarto dia em diante e então pude fazer chamada de vídeo. Vi todos os meus, muito inchada, algumas vezes de máscara, apenas acenando com um joia, dando-lhes a esperança que iríamos vencer.

                Eu me preocupava com todos, mas com minha mãe era mais, pois sabia o quanto estava sofrendo pela morte do meu irmão (há 15 dias).

                Quando eu via sair um corpo no saco preto, pensava: a próxima poderá ser eu, mas Deus não quis assim, e O agradeço de todo o meu coração por esse milagre imenso.

                Só Deus poderia fazer isso, ninguém mais! E Ele fez!!! Glórias ao Rei do universo!!! Louvores Lhes sejam dados para sempre!

                No momento da dor, do sofrimento, querendo ou não nos aproximamos mais de Deus, pois notamos a falibilidade dos projetos humanos. Percebemos nossa pequenez.

                Não tenho nem palavras para agradecer por esse livramento!

                Na UTI meu nome não era mais Maracy, passei a ser chamada por todos como “O Milagre”. Então eu saia para fazer exames e ouvia alguém dizer: Ah! O Milagre está indo fazer exame!...

                Não posso esquecer que quando sai da UTI ali estava novamente meu pai a me esperar. Lembro-me com alegria de ter ouvido de sua boca pela primeira vez: Glória a Deus!

                Fui para o quarto e pagaram uma cuidadora para mim, a Adriana, uma moça que para sobreviver se submetia a aquele trabalho tão perigoso. Meu melhor banho até hoje foi aquele de quando fui pro quarto. Precisava respirar fundo, porque ainda me sentia fraca, mas estava valendo!

                Depois vieram as sessões de fisioterapia, e fui melhorando. Até que pude voltara para a casa dos meus pais, onde continuei a fisioterapia.

                Quão grande foi a alegria da minha saudosa mãe, e de todos os outros, a quem foram dadas tão poucas esperanças sobre mim.

                Fiquei uns 3 meses ainda no Ceará, pois estava tão fraca, que nem suportava uma viagem de 3 horas num avião. Depois disso minha filha caçula foi me buscar.

                Ficaram algumas sequelas como o stress pós-traumático, mas nada perto do que passei.

                Tento ser uma pessoa melhor, mas evoluo a cada dia, afinal sou humana e sem Deus nada sou. É Ele quem me guia e cuida de mim. Meu desejo é que o Senhor me perdoe as fraquezas e a cada dia me guarde e à minha família debaixo de Suas asas, onde nenhum mal poderá nos alcançar.

                Teria muito mais a dizer, mas hoje fico por aqui.

                Beijos de luz!

 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

 

Lendo Manual do Luto – Carpinejar - e pensando em minha mãe.

 

“Quando se perde o olhar do outro, sua palavra, seu amor, fica-se à deriva. Nada nos consola. Cessam os movimentos da vida... Não mais se rasgam horizontes. Restam as lembranças do amor vivido...” (Carpinejar)

 

Ganhei esse livro Manual do luto de uma pessoa muito especial, que também teve grande perda na vida. Gratidão!

 

Quando em dezembro /2024 deixei minha mãe na porta, chorando, sei que estava me abençoando. Só não sabia que era uma despedida, mas confesso que nunca meu coração tinha ficado tão apertadinho. Chorei demais. Antes um pouco eu tinha a abraçado muito, “cheirado” sua cabeça e dito que em maio estaria de volta.

Minha mãezinha estava passando momentos muito difíceis em sua vida. Eu ficava horrorizada com aquilo, me sentia impotente, mas um dia ela me disse assim: filha, Deus vai fazer uma obra! Mal sabia eu que era recolhê-la. Eu acreditava que as pessoas poderiam mudar em relação a ela, ou que ela pudesse reagir àquela violência a qual vinha se submetendo.

Minha mãe descansou, e isso não é um jargão. Ela realmente estava cansada de viver. Perdeu seu filho em 2021, vítima de Covid, com 39 anos. Carpinejar diz em seu livro que se o filho morre, desaparece na mãe o medo de morrer, o sentido da preservação, a lealdade ao cuidado. E isso aconteceu com minha mãe.

Eu poderia dizer que ela deveria lembrar que tinha mais dois filhos, mas eu entendia sua dor.

“Se desfazer: dói se desfazer do que já foi essencial a uma existência”. (Carpinejar)

No dia que fomos olhar os pertences do meu irmão, vi aquela mulher arrasada ali sentada no chão, entre roupas, relógios, bonés, cadernos e outras coisas mais como as toalhas e camisas de time de futebol de seu filho caçula.

A   ideia era distribuir tudo, mas é como se aquilo fosse rasgando nosso coração em mil pedaços.

Isso aconteceu comigo. Além da dor da perda, eu tive que abrir aquele guarda-roupas da minha mãe com tudo tão caprichado e começar a desfazer o que foi construído em toda uma vida. Eram peças simbólicas demais. Algumas ficaram comigo, o celular também ficou. Os óculos dei ao meu irmão, além de algumas roupas.

Fiquei com a pele (um vestido estampado que a presenteei e ela usava bastante). Fiquei com seu relógio, seu anel e outras coisas...guardo com muito amor e carinho.

As demais coisas doei, como sei que seria seu desejo. As linhas de bordado doei para uma irmã que trabalha com isso.

Ah! Os bordados em ponto cruz... divinos, avesso limpo. Ela nos presenteava tanto. Era tudo personalizado, um luxo.

 

“Não existe maneira de apressar o processo do luto. É a readaptação de existir a partir de uma ausência” (Carpinejar)

 

A pior cena que eu já presenciei na minha vida foi ver minha mãe numa urna funerária: parecia um anjo, adormecida, bela como sempre foi.

Quando recebi a notícia veio a negação. Chorei, fiquei desesperada. Tive que viajar sozinha para tão longe, dormir em hotel... a cada quilômetro rodado de Fortaleza até Orós-CE eu sabia que daria de cara com a pior visualização que um filho pode ter.

Oh mãe! Cadê nossa viagem de maio? Onde você está dá para me ver? Você me escuta? Alguns dizem que não devo chorar porque vou te entristecer. Isso é verdade?!

Aqui está cheio de fotos tuas. És viva na minha casa e no meu coração principalmente.

Se eu pudesse teria trazido tua casa para a minha, cada detalhe ali lembra você mãe! Mas a casa também é do meu pai. Eu não poderia desmontá-la e trazê-la para meu apartamento em São Paulo.

Não fui ainda em tua casa mãe! Ainda não estou pronta. A viagem de maio foi adiada, sabe aquela que tinha te prometido?! Pois é!

 

Cada canto lembra você, cada móvel, o lugar na mesa, o lugar da rede, tua poltrona na sala. Tua máquina de costura está com meu irmão.

Nós pensávamos que aquela mulher iria tentar ocupar teu lugar na casa, mas Deus não quis assim.

Papai hoje está casado novamente, afinal a senhora vivia dizendo que ele não sabia fazer nem um café né?!

Bom, vou ficando por aqui, mas quero te dizer mãe que em alguns momentos espontaneamente me vejo em posição fetal clamando por tua presença.

Esse texto é um mix de reflexões do escritor com meus sentimentos. Talvez quem o leia nem o entenda, mas para mim serviu de desabafo.

Paz e luz!


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

 

O ÓCIO E EU

                Eu me casei muito nova (17 anos), e fui mãe aos 18. Semana que vem eu completo 52 e minhas filhas estão “criadas”, soltas aí nessa vida, mas podem voltar para meu colo quando e sempre quiserem (e às vezes querem).

                Uma mora em Portugal, tem 33 anos, é casada, faz mestrado e tal. Ainda não me deu um neto, e a outra mora aqui em São Paulo, também faz mestrado, tem um namorado e também não me deu um neto. Mentira: a mais velha deu duas netas, as cadelas Manu e Panqueca e a mais nova me deu uma neta gata, de nome Guatarri.

                Estou no segundo casamento, e meu novo marido é um “fofinho”. Moramos eu, ele e a filha dele, de 19 anos.

                Quando eu chego em casa do meu trabalho das 8 às 14h, geralmente está tudo arrumado no apartamento, comida pronta e tal. Ele trabalha à noite, e consequentemente dorme durante o dia. Leva-me e busca-me no trabalho.

                E aí é onde entra o ócio: fico sem saber muito o que fazer nas tardes, e aí criei uma estratégia de deitar ao lado do meu marido, ficar quietinha e cochilar. Quando não conseguia cochilar, tomava Rivotril pra isso. Fuga! Sim! Mas não contava para ninguém. Ao invés de procurar algo producente para fazer eu ia dormir. E assim estava passando a minha vida. Até que me deu uma crise de pânico, pois eu tomava Rivotril e não conseguia dormir, que era a coisa mais maravilhosa que eu achava na vida.

                Quando foi um dia eu resolvi refletir sobre o que estava fazendo com minha vida, e contei para minha psicóloga sobre tomar remédios para dormir ( clonazepan- rivotril), para o qual desenvolvi uma tolerância ( quanto mais tomava, mais queria, e não dormia).

Aí comecei a meio que “enlouquecer” porque minha vida só tinha sentido se eu vivesse dormindo. E isso é vida?! Trabalhar 6 horas para mim, não estava sendo o suficiente, eu precisava de algo para fazer.

Aí lembrei que tinha aqui meu blog, considerado ultrapassado para os jovens, mas vai por aqui mesmo! Hihihi

Vou reativar meu diário, e nele escreverei o que considero que vai contemplar alguns companheiros e companheiras.

Tenho 15.000 seguidores e vou tentar monetizar essa prática, se bem, que só o fato de escrever já me deixa feliz.

Eu criei esse blog quando fiz cirurgia bariátrica, e deixei de escrever há algum tempo, mas é uma forma de extrapolar minhas vivências, meus anseios, minhas perspectivas de vida, enfim.

Em 07 de janeiro de 2024 eu perdi minha mãe por um infarto. Foi a pior perda até então após a do meu irmão em 15 de maio de 2021. Ele tinha 39 anos e foi vítima de Covid. Digo isso porque tem a ver com o ócio, pois quando eles estavam vivos eu conversava mais, nos comunicávamos mais. Tem meu pai e meu outro irmão, mas são muito ocupados.

O blog ajuda porque seus amigos nem sempre estão a fim de ouvir o que você quer dizer: eles também têm seus problemas.

Bom mesmo é ter uma terapeuta como eu tenho que me ensinou várias coisinhas para eu sair dessa do ócio e do sedentarismo. Olha só! Ela me mandou uma listinha de coisinhas para fazer (obviamente é Terapia Cognitivo Comportamental...rs). É assim: criar caixa do pronto socorro- criar cartões de enfrentamento para colocar dentro da caixa (acho que vou achar é uma sacola chique). Esses cartões devem conter frases para eu acessar todos os dias, como por exemplo:

PENSAMENTOS NÃO SÃO FATOS;

OS PROBLEMAS DOS OUTROS SÃO DOS OUTROS;

EU ME VALIDO;

EU SOU CAPAZ;

POSSO NÃO SER A MELHOR, MAS FAÇO O MEU MELHOR;

DEVO ME CONECTAR COM O QUE REALMENTE IMPORTA, MEUS VALORES DE VIDA;

PRECISO DAR ADEUS AOS PENSAMENTOS INTRUSIVOS;

ESTÁ TUDO BEM;

COMO UM MOTORISTA DE ÔNIBUS, DEVO IR DEIXANDO CADA PASSAGEIRO EM SUA PARADA E CONTINUO MEU ITINERÁRIO;

SOBRE LUTO:

EU VIVO MEU LUTO COMO CONSIGO;

A FALTA DA MINHA MÃE, ME FAZ ENTENDER O QUANTO ELA É IMPORTANTE PARA MIM, MAS NÃO DEVE ME PARALISAR, QUERO ENCONTRÁ-LA!

MEU TRABALHO TEM DESAFIOS COMO QUALQUER OUTRO, E EU SOU RESPONSÁVEL APENAS PELO QUE ESTÁ DENTRO DOS MEUS LIMITES.

                Além dessa estratégia das frases minha terapeuta solicitou que realizasse a higiene do sono. Sabe?! Devia[MR1]  existir uma bolsa-terapia mundialmente, até mais que uma bolsa-manicure! Juro! Essas danadas nos ajudam a chegar às verdades que estão ali bem na nossa “cara”. O que é incrível é que ninguém na família é capaz de tal façanha, mas terapeutas são. rs

                Sobre o luto e minha mãezinha passarei a escrever aqui também, pois creio que será uma forma de me conectar maiormente com ela, trazendo para meus leitores, as riquezas do que eu for lendo, como é o caso, que até indico, de O Manual do Luto, de Carpinejar.

                Hoje fico por aqui.

                Beijos de luz!


 [MR1]