***Antes de tudo, quero esclarecer que escrevo o que penso, o que não quer dizer que me sinta dona da verdade.
Boa noite!
Certifico-me cada dia mais que gentileza, cordialidade, respeito, serenidade e outros atributos, não estão diretamente ligados ao nível de escolaridade da pessoa ou ao fato desta ter adquirido o status de alguma profissão admirada.
Nos corredores da vida encontramos todo tipo de gente: os que andam apressados e os que caminham lentamente, os pensativos e os que facilmente se dispersam, os que conseguem lidar melhor com perdas e frustrações e os que precisam de mais tempo para "encarar" esta tal realidade, que na grande maioria das vezes chega sem avisar.
Há os que cumprimentam com palavras, outros com um sorriso ou o olhar de quem se importa de "se importar" com o outro, e reconhece estar na mesma condição humana de criação divina. No entanto, há os que friamente dispensam quaisquer cumprimentos e parecem fazer questão que nos sintamos invisíveis. Se sequer respondem a um bom dia, não seria esperar demais que o proferissem algum dia?!
E assim seguimos, e parece que está tudo tão estruturado, mas no cotidiano muitas vezes nos deparamos com tudo tão desumanizado... E aí se fala em transformar o mundo, quando não se é capaz sequer de responder a um bom dia!...
Não quero aqui me vitimizar e nem tecer comentários pejorativos em relação a quem quer que seja, mas educação está, infelizmente, cada dia mais em falta. Parece que poucos a possuem, ou então não a poe em prática. O que fazer, não é? Em algumas ocasiões a gente finge que o outro nem ouviu nosso cumprimento, pois talvez soframos menos essa indiferença toda. Onde será que está o problema?!
Engraçado é na época do natal e do ano novo: aqueles que passaram a maioria do tempo assoberbados em seu mundinho, dizem que vão confraternizar. Mas com quem mesmo?! Talvez com as pessoas do mesmo nível social... E os que o nível não abarca as exigências que a sociedade hipócrita e excludente estabelece como padrões???
Não desejo ser enaltecida, desejo apenas que alguém seja capaz pelo menos de procurar entender que uma palavra, um sorriso ou um olhar tem um poder estupendo. Podem confortar um coração aquebrantado ou adoecido, e por que não dizer que podem até prevenir várias doenças?! Podem mudar uma vida, acreditem!
Obviamente nem todo mundo sai por ai distribuindo "simpatias". O que me impressiona mesmo, de verdade, é saber que pessoas que lidam tao "de perto" com a finitude da vida, se deixem petrificar desta forma e passem a agir como se fossem infalíveis...
Pois é, quase ninguém quer saber sobre as nossas dificuldades, e é até compreensível, pois todos tem obstáculos a enfrentar, mas falo aqui de algo que não exige tanto tempo, que não nos onera, de um simples cumprimento, senão todo dia,quem sabe uma vez ou outra?
Ah, eu ia esquecendo: tem também os que nos cumprimentam e vão logo especulando sobre nossa vida, nem se dão ao trabalho de perguntar se estamos bem ou se precisamos de algo. Será que estão realmente preocupados conosco?!
Eu não poderia deixar de citar os que até cumprimentam, mas é aquela "coisa" fria, vazia, sem sal, pois só conseguem falar de coisas e não de sentimentos... por vezes nos abordam nos corredores para contar suas vantagens, sem querer saber do que realmente necessitamos naquele exato momento.
Sim, temos o direito de compartilhar sobre nossas experiencias, mas que tal procurar desenvolver a "escutatória"??? As vezes o outro só precisa saber que em algum momento alguém parou para escutar sua "voz".
Em discussão do assunto um dia desses,alguém me disse que certos profissionais que citei, que lidam de perto com a morte, se petrificam como uma forma de se blindar. Pode ser, mas ainda penso que a soberba e a vaidade distanciam muito as pessoas do que realmente importa na vida.
Em discussão do assunto um dia desses,alguém me disse que certos profissionais que citei, que lidam de perto com a morte, se petrificam como uma forma de se blindar. Pode ser, mas ainda penso que a soberba e a vaidade distanciam muito as pessoas do que realmente importa na vida.
Enfim,deixo como sugestão para reflexão um texto do escritor Rubem Alves:
ESCUTATÓRIA
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.
Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.
Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.
Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".
Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
Grande escritor esse rapaz!
Beijos de luz.
Um comentário:
Muito legal ��
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