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terça-feira, 5 de março de 2019

Maturidade, que "bicho" é esse?!


Maturidade, que “bicho” é esse?!

A maturidade nos traz evolução a cada instante: aquilo que dizíamos jamais comer já parece ser uma opção. Não importa mais o que os outros acham porque a gente descobre não ser mesmo o centro das atenções, principalmente numa metrópole como São Paulo.
As pessoas andam muito distantes. Algumas mais próximos ainda nos escutam falar sobre nossas lembranças, anseios e frustrações, sobre o que fizemos, o que deveríamos ter feito e o que ainda pretendemos fazer, ou fingimos que pretendemos...
Com a maturidade a gente confirma que é impossível mesmo agradar a todos, e que quem quer que seja, tem o direito de não gostar da gente  embora deva nos respeitar.
A gente “cai na real” que é lindo dizer que imagina o sofrimento do outro e desenvolve a empatia, mas tem situação que você só vai compreender um dia quando vivenciá-la, sim, em carne e osso.
Uma sábia mulher disse numa de suas palestras certo dia que nada é igual, pois ainda que nos reuníssemos com os mesmos amigos, usando as mesmas roupas, nos mesmos lugares e horários, ainda assim tudo seria diferente, pois cada um estaria naquele momento num determinado  contexto de sua vida.
Outra coisa que aprendi com o tempo foi o quanto negamos ser preconceituosos, e o quanto alguns necessitam esconder-se na religião ou na cultura. Por que não admitir que todos somos ou fomos  preconceituosos em algo?! Por que é feio?! Feio é não admitir e não se permitir mudar. Há muito deixei de dizer que nasci assim e vou morrer assim. Essa era uma das frases menos inteligentes e mais absurdas que algumas vezes falei...
Tenho conhecimento que somos boa parte resultado da forma como fomos educados, mas a partir do momento que descobrimos que alguns julgamentos de valores são apenas empecilhos para nossa felicidade e a dos outros, devemos nos desnudar de alguns costumes e pensamentos.
Houve um tempo que eu vergonhosamente classificava as pessoas como bonitas ou feias, “humildes” ou soberbas etc e tal. Porém esses conceitos começaram a me incomodar, pois ninguém, absolutamente ninguém pode ser descrito de uma forma tão simples ou grotesca. Afinal, o que é ser bonito? E ser inteligente? E qual o verdadeiro sentido de humildade?!
Tive o privilégio de, apesar de vir de família humilde, estudar muito, ler muito, desconstruir muitos pensamentos horrendos. Agradeço a Deus por hoje viver mais desarmada, por conseguir ser mais flexível e escutar o que o outro tem a dizer, embora nem sempre concorde. É um exercício muito difícil, confesso! Mas valerá a pena algum dia, ah se valerá!... Para mim já vale!
Além de escutar preciso saber e estar disposta a ouvir, talvez muitas vezes com o coração, outras com a razão. Peço a Deus que me dê discernimento para compreender que nem sempre os lábios dizem o que realmente há no coração, às vezes o coração chora, e os lábios sorrindo estão.
Também aprendi que muitas vezes não suporto o outro porque eu queria ser exatamente igual a ele e não o sou. E é preciso muita maturidade para admitir isso.
Consegui compreender depois de tanto tempo que pessoas que falam muito sobre coisas materiais desejam muitas vezes se vangloriar de algo que apenas gostaria de ter vivido.
Não acredito que todos sejam tão realizados assim, pois se tem a necessidade de viver, por exemplo, expondo a vida nas redes sociais, de alguma carência sofre, o que não o diminui como humano que é.
Ouvi falar que para alguns quando a verdade  dói demais, é melhor criar uma outra, ou fazer vistas grossas para não sofrer mais. Quem nunca?!
Alguns se sentem tão corretos, mas até isso a idade vai nos ensinando que o que é correto para mim nem sempre o é para o outro. Além disto, algumas opiniões ou atitudes baseiam-se no que for mais conveniente - o que nem sempre é o mais verdadeiro.
A sutileza nas palavras deve ser algo a se buscar a cada instante. Esse negócio de dizer que fala é na cara, que não é falso e tal, isso só serve para você sair dizendo “suas” verdades, mas lembre-se que quem teima em dizer verdades, se ditas da maneira inadequada, poderá perder grandes amizades.
Concordo que a sinceridade é uma ótima qualidade, mas antes de sair dando lição de moral nos outros, imagine como você se sentiria se fosse com você?! Ou você se julga tão perfeito ao ponto de não ter no que ser advertido ou “aconselhado”?!
Costumo dizer que nem sempre o que magoa é o que é dito, mas a forma como é verbalizado. Por este motivo prefiro conversar sobre assuntos mais delicados quando posso olhar nos olhos, quando o outro possa me ver por inteiro, pois a comunicação não é apenas a verbal, mas traz gestos, tom de voz e outras expressões corporais.
Digo sempre que a comunicação escrita abre precedentes para muitas interpretações equivocadas, pois nesta nem sempre temos a oportunidade de ver o outro – a menos que se faça uma chamada de vídeo.
E tem mais, a mesma frase pode ser dita em determinado contexto sem que magoe quem quer que seja, mas noutro contexto poderá ser diferente, e magoar profundamente.
E se não pudermos contribuir com o bem estar do outro, por que devemos nos achar no direito de o julgarmos ou tentar adivinhar seus pensamentos, tornando-se  pessoas na maioria das vezes, persecutórias?!
Falo isto de gente que cria situações, que fantasia sentimentos, geralmente ruins dos outros em relação a si. Passei boa parte da minha vida fazendo isso, e descobri o quanto eu tornava a minha vida mais complicada.
O Padre Fábio de Melo diz que estamos em processo de eterna feitura, e eu fico feliz por ter a oportunidade de participar desse processo. Neste , muitas vezes identificamos o quanto não sabíamos sobre nós mesmos.
Com minhas filhas criadas comecei a perguntar o que fazer com esse tempo livre que ora disponho. Inicialmente reclamava que elas não precisavam mais de mim, e achava um absurdo agendarem suas próprias consultas se era eu quem o fazia, se era eu quem escolhia suas roupas e os lugares onde deveriam ir, geralmente, junto comigo.
Passei pela fase da síndrome do ninho vazio, e demorei, mas hoje compreendo que eu fiz da mesma forma com os meus pais, e isso não quer dizer que não os ame ou não reconheça cada coisa que fizeram por mim, cada noite de sono perdida, cada mingau feito, cada vestidinho alinhavado vindo da Capital, a televisão de 05 polegadas, a caixinha de música, e tantos outros detalhes que só servirão neste momento para me fazer chorar.
Hoje me permito admirar quando minhas filhas alçam seus vôos... Compreendo que dei o meu melhor e, que muitas vezes errei, mas foi  na tentativa de acertar.
Nessa fase chamada maturidade  fujo de olhar algumas fotos, mas às vezes faço questão de olhar outras: as fotos ilustram minha história...Tendemos a reclamar muito e agradecer pouco. A falsa modéstia é um grande mal, afinal reconhecer-se vencedor não é orgulho, mas gratidão.
Um dia uma filha me disse que eu era seu grande exemplo, e eu fiquei chocada com isto. De verdade, achei que ela só estava cumprindo seu papel de filha tentando me agradar, mas parei e pensei sobre toda a minha trajetória, todas as minhas perdas, mas também todas as minhas conquistas.
Cresci ouvindo que nada recebemos de Deus por merecimento, mas hoje entendo que precisamos fazer a nossa parte, ser persistente, ter fé. Se Deus ressuscitou a Lázaro, o que lhe custava mandar que a pedra saísse, mas não, ele ordenou aos homens que retirassem a pedra do sepulcro, então é notável que o que depende de nós, deve ser feito por nós, preferencialmente pedindo a sabedoria divina, para que nosso ego inflamado não venha a atrapalhar as bênçãos para nós reservadas.
O que me acalma às vezes é saber que aquilo que tiver que acontecer comigo, acontecerá, mas eu tenho o poder concedido por Deus para fazer escolhas, e como Pai, Deus nos permite fazê-las, embora saiba que lá na frente iremos nos arrepender de algumas.
Mas vamos lá, voltemos à tal maturidade: a solidão geralmente torna-se nossa companheira ou vem nos visitar à medida em que nossa idade vai aumentando e
Sim a solidão, que segundo Alceu Valença numa de suas músicas, é fera e devora.“! No entanto, seria a solidão apenas desfavorável?! Ou ela serve para ficarmos de cara consigo mesmo e não ter a quem atribuir culpas pelos erros e fracassos?!
A solidão proporciona a leitura de bons livros, ouvir as boas músicas que você cresceu escutando, lembrar-se de tanto tempo perdido com reclamações desnecessárias e reconhecermos o quanto ainda temos o que aprender.
Imagino o quanto deva ter sido desagradável a minha companhia no tempo que eu reclamava de tudo, absolutamente tudo! Parecia um vício, do qual ainda não me livrei completamente.
Quando me pego a reclamar tento mudar de assunto e, como dizia uma das minhas filhas ao presenciar a família conversando sobre assuntos negativos: “Vamos falar de coisas boas?!”, e isso nos deixava deveras envergonhados.
Tem gente que não vejo há tanto tempo. Em meu percurso conheci tantas pessoas maravilhosas, todas diferentes e nenhuma menos interessante. E penso que essa tal maturidade me ensinou que ao encontrar essas pessoas amadas eu deva abordar assuntos que nos façam sorrir, recordar, contribuir para que saiamos melhor daquele encontro.
Obviamente temos a necessidade de desabafar de vez em quando, e é maravilhoso quando temos quem nos escute, mas chamo a atenção para o fato de reclamar transformar-se num costume doentio, que inquieta a nossa alma e a de quem nos ouve, que impede de Deus operar maravilhas em nossas vidas, de realizarmos nossos sonhos, e diminui nossas forças para superar os obstáculos e enfim, agradecer, e agradecer, e agradecer por tudo, pois o que vivemos nunca é em vão, se não foi bom, no mínimo nos servirá de lição.

Maracy Rolim Bezerra
São Paulo, 25 de dezembro de 2018

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